terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Caim (Caim, 2009)


O polêmico e ferino José Saramago, recria o Antigo Testamento a seu modo de pensar, mostrando um outro lado da moeda, muito divertido e interessante para o conhecido na Bíblia. Ah, os católicos não vão gostar nada, nada disso!
O enredo começa com a criação de Adão e Eva, e os acompanha até a expulsão do Éden. A partir daí, a história passa a ser protagonizada pelo próprio Caim. A narrativa mostra toda a jornada de Caim – que depois de matar seu irmão Abel, foi poupado por Deus, que também se sentiu culpado e cúmplice do assassino – ao longo das passagens mais célebres do antigo testamento. Ao longo de idas e vindas, Caim repassa e contesta muitos dos acontecimentos presenciados por ele, ao longo da história da humanidade.
O detentor do prêmio Nobel de Literatura, José Saramago é conhecido pela sua literatura ácida, e satírica, sempre antagonizando Deus e a religião. Se em O Evangelho Segundo Jesus Cristo, ele aborda o Novo Testamento sob seu ponto de vista – altamente destrutivo – em Caim, é o Antigo Testamento o seu novo alvo. De leitura rápida e envolvente, Caim repassa com muita poesia e musicalidade, uma versão mordaz dos acontecimentos bíblicos, narrando a eterna guerra entre Criador e Criatura.
Contos que obviamente todos conhecem, são mais uma vez contestadas, mas sob o ponto de vista de Caim, pequenas sutilezas não perceptíveis – principalmente na mente cega dos religiosos – são desnudas, mostrando um lado mais egoísta de Deus. Divergências religiosas a parte, o fato é que lendas como a destruição de Sodoma e Gomorra, a Torre de Babel, a queda das muralhas de Jericó, a triste sina de Jób, e o eterno dilúvio, acabam se tornando divertidíssimas sob a mente ferina de Saramago, repletas de ironia, e depravações cômicas – como o fato de Abel, ser filho possivelmente não de Adão, mas do querubim que guarda a entrada do Éden.   
Caim por sua vez, não poderia ser escolha melhor para protagonizar essa história, um dos personagens mais sombrios e sinistros da Bíblia – que ao lado de Judas e o próprio Lúcifer, acaba fazendo uma espécie de Divina Trindade do Mal – acaba sendo o mais sensato de todos os personagens, com um ponto de vista “justo”, porém neutro - que não compra briga para nenhum dos lados, e não se isenta de culpa pela morte de Abel – acaba sendo o narrador ideal para mostrar em como foi incompetente a gestão da humanidade por parte de Deus.
Mas deixando a religião de lado, Caim é também uma verdadeira crítica a humanidade, que sempre acaba por ser mesquinha e egoísta – Saramago não perde a chance, de afirmar que somos feitos a imagem de Deus, que portanto tem os mesmos defeitos de sua criação – e não teria como ser melhor  após o dilúvio. Com um final inesperado, e surpreendente, a humanidade, acaba no fim das contas, tendo os seus problemas resolvidos pelo próprio Caim, culminando num desfecho fascinante para a obra de Saramago.




Escritor: José Saramago




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