terça-feira, 9 de novembro de 2010

Jogos Vorazes (The Hunter Games, 2010)


Jogos Vorazes, o livro mais aclamado pelos adolescentes do momento, leva na capa um título forte e promissor, mas que se perdendo numa roupagem teen, acaba revelando que de voraz não tem nada.
Panem - o nome que recebe hoje o que um dia foi a América do Norte – é formada por um distrito principal – a Capitol – e doze distritos secundários. A Capitol, que se viu envolvida em uma guerra contra todos os outros distritos, depois de sair vitoriosa, criou como forma de punição os Jogos Vorazes: Uma competição na qual um casal adolescente de cada distrito é colocado numa arena, e são obrigados a lutar pela sobrevivência até que apenas uma criança saia viva. Moradora do pobre e miserável Distrito Doze, Katniss Everdeen resolve participar dos jogos no lugar de sua irmã mais nova, e terá a “companhia” de Peeta Mellark um rapaz até então ignorado, mas que a muito sente uma quedinha por Katniss. Juntos de mais 22 jovens, eles serão obrigados a lutar até que apenas um saia vivo!
O idéia de usar um jogo no qual o prêmio final é a própria vida não é original, faz parte da história da humanidade com os gladiadores e o lendário Coliseu, e também da cultura pop, como pode ser visto nos filmes: Corrida Mortal e Gamer. O assunto é interessante e até onde eu me lembro não tinha pintado em livros, por isso entrei de cabeça em Jogos Vorazes, pois esperava a mesma sensação encontrada em outras mídias, mas infelizmente esse é um dos pontos onde a história perde força. A idéia de um jogo de vida e morte como o existente no Coliseu no qual os participantes são colocados para lutar frente a frente, ou mesmo uma prova cheia de regras letais, não existe aqui. O que se vê é na realidade um Reality Show - com câmeras, apresentador, influência do público e tudo – de sobrevivência, onde só é eliminado quem morre. O que poderia ser uma arena cheia de armadilhas e armas, se transforma numa floresta onde o maior objetivo é se manter vivo juntando mantimentos e se camuflando, e ocasionalmente lutar com quem tenta roubar sua comida, para apimentar a disputa, os organizadores tem suas próprias artimanhas, como vespas e pássaros modificados geneticamente, uma idéia que não colou – sem falar nas feras feitas a partir dos participantes mortos. Apesar de ser uma opinião pessoal eu tinha uma idéia diferente para esse “jogo”.
Outro fator decepcionante é a brutalidade do enredo, por ser um livro voltado para o público teen, essa brutalidade simplesmente não existe, ou é muito amenizada. A começar pela personalidade dos personagens, Katniss por exemplo é uma pessoa boazinha que tenta ajudar todo mundo, e ao mesmo tempo viver com o dilema de ter que matar todo mundo, essa dualidade porém não é bem trabalhada, e ela acaba sendo uma típica heroína de sessão da tarde. A brutalidade também não existe no jogo, que apesar de ter suas mortes, são ocasiões batidas e bastante “light”, ainda mais para uma época em que Jogos Mortais já virou clichê!
A batalha contra os participantes pela sobrevivência, acaba sendo o plano de fundo para uma guerra que ainda está por vir: a guerra contra o sistema! Esse também é mais um ponto onde a história se dispersa. Se no primeiro capítulo a história de Katniss consegue evocar no leitor todo o ódio contra o governo – típico de histórias lendárias como “V de Vingança” e até mesmo acontecimentos reais como os vividos pelos judeus contra o nazismo – esse ódio simplesmente some ao longo da narrativa, principalmente pelo comportamento de Katniss e Peeta, que acabam se divertindo com o tratamento dado aos participantes. Esse ódio só volta no final da narrativa... para se perder de novo. talvez mais uma característica da literatura teen, mas é uma pena, porque poderia ser trabalhada mais a dramaticidade fazendo brotar o ódio do leitor pelo governo – que não tem nem um nome para direcionar o ódio - culminando com a vingança contra a Capitol – que está prometida para as continuações.
Mas apesar desses detalhes, a narrativa de Collins é boa e flui com eficiência, e os personagens mesmo com todos os clichês típicos da literatura teen, são bem desenvolvidos e carismáticos, porém a história se perde, mesmo com uma sinopse promissora - afinal histórias de ódio contra um governo opressor sempre são um grande chamariz - o foco se desvia, atenuando toda a dramaticidade existente no enredo.
No conjunto da obra é um bom livro, e fica a expectativa para sua continuações, mas poderia ter sido melhor. Quem sabe trabalhando melhor a idéia de jogo, teria sido um clássico se fosse voltado para um público “censura 18 anos”!




Escritora: Suzanne Collins


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