segunda-feira, 20 de setembro de 2010

300


“... A chuva caía torrencialmente no campo de batalha, a lama se misturava ao sangue, criando enxurradas de água rubra, que parecia verter das enchentes do demoníaco Aqueronte. Os corpos que se perdiam em meio aquele pântano dantesco, fariam até Caronte se excitar!
Centenas de dezenas de milhares de corpos jaziam mortos: esquartejados, retalhados, perfurados, esmagados, tendo como epitáfio apenas lanças, espadas e escudos estilhaçados. Em frente à senda, um pequeno batalhão espreitava o inimigo, e na frente de batalha, estavam os últimos remanescentes do exército espartano: 7 guerreiros da elite espartana, todos machucados, cansados, mas revigorados pelo sangue dos inimigos que os banhava da cabeça aos pés!  A frente daqueles bravos soldados, ia o homem que moldou a história do mundo: Leônidas, o Rei de Esparta. Estava nu, com exceção do manto vermelho que cobria seu corpo esfolado; sua cabeleira se fora, em conseqüência de um corte profundo no crânio ainda nos primeiros dias de batalha, mas a barba espessa tingida de vermelho lhe cobria o queixo;  o braço esquerdo estava amputado até o meio do anti-braço, a ponta do osso saia do grave ferimento; o abdômen estava suturado por diversos curativos, que agora abertos vertiam sangue; duas ou mais costelas estavam quebradas, e uma das coxas estava trespassada por uma flecha. Ainda assim Leônidas não largava a espada, e encarava o inimigo como um lobo ferido e esfomeado encara uma ovelha solitária e saudável. Do outro lado da moeda: Xerxes, a Besta, escondido atrás de seus guardas pessoais, encarava Leônidas. O exército persa havia sido massacrado, e Xerxes sabia que aqueles 300 espartanos iriam entrar para a história, mas isso num interessava contanto que ele governasse o mundo - dessa forma poderia até mesmo contar a sua versão da história – e agora para descontar toda a afronta sofrida, ele iria pessoalmente degolar o decadente Leônidas.
De tamanho descomunal, o gigantesco Xerxes caminhou em direção a Leônidas vagarosamente, desfilando o seu extraordinário peso - e não se engane, todos os que o consideraram lento, tiveram seus crânios esmagados pelas mãos do monstro, em menos de segundos – se aproximando de um Leônidas, que parecia estar em pé apenas por teimosia. A guarda pessoal de Xerxes cercou Leônidas, que deu ordem para seus generais se afastarem – dizem que era deprimente ouvir a voz de Leônidas naquele estado – e Xerxes se aproximou para efetuar o abate!
Xerxes golpeou Leônidas com um punhal, em cima do ferimento da barriga, colocando a arma dentro do rei espartano com facilidade. Os generais de Esparta partiram para o ataque, mas foram bloqueados pela Guarda Real Persa, enquanto seu rei estava à mercê do demônio.
Leônidas jazia caído no chão, e como um cão babava nas sandálias Xerxes:
- Beije meus pés cão, e eu serei rápido e piedoso com você e seus homens! – Proferiu Xerxes!
Leônidas olhou para cima, com os olhos intumescidos de lágrimas...”

- Que porra Marc, será que você escutou alguma merda do que eu falei? – esbravejou o professor Thompson, tendo que interromper sua narrativa, para ralhar com um inconseqüente aluno, que cochilava displicentemente na aula.
- Foi mal “titcher”...
- Você pode continuar a história Marc?
- Lógico que posso, nós ouvimos desde sempre essa parada – tentou se manter concentrado, mas os efeitos toxicológicos falavam mais alto – no fim os persas perderam a guerra, e blá blá blá...
- Que sua alma vá direto para Dite seu bastardo! – estourou o professor – Você acha que eu num posso sentir seu cheiro daqui seu moleque? Você cheira à drogas! Vá direto para a diretoria, antes que eu mesmo de queixa de você – apontou cruelmente para a porta.
Marc saiu cambaleante, com o gingado característico de um entorpecido, com as calças caídas atrás, e camiseta larga, a mochila pendendo no ombro direito e sumiu sem olhar para ninguém.
- Bom onde eu estava... Terry será que você pode terminar a narrativa para mim? – Perguntou o professor sem olhar para ninguém em especial, e foi até sua bancada tomar um copo d’ água!
Terry se levantou timidamente. Ele sempre fora uma incógnita, não era o garoto mais popular da escola e embora nunca era visto com ninguém, tinha pelo menos um pequeno grupo de garotas que se derretia – ou se molhava -  por ele; não era lindo, mas tinha uma aparência misteriosa; tinha um perfil atlético, mas sempre usava roupas largas e exibia pouco seus músculos; era  muito inteligente, e sempre tinha as notas mais altas, e era aquele tipo de aluno preferido pelos professoras; era um cara isolado, não conversava com ninguém, não tinha amigos, era sempre alvo de gozações ou brincadeiras, mesmo sendo aparentemente mais forte do que muito de seus agressores, ele era aparentemente um cara pacífico. Usava calça jeans, camiseta branca, sobreposta por uma camisa xadrez azul, se levantou e foi até a frente da sala, e preparou para continuar a história, sem olhar para alguém em especial.

Leônidas jazia caído no chão, e como um cão babava nas sandálias Xerxes:
- Beije meus pés cão, e eu serei rápido e piedoso com você e seus homens! – Proferiu Xerxes!
Leônidas olhou para cima, com os olhos intumescidos de lágrimas... e cravou o osso partido do anti –braço nos pés de Xerxes:
- Xerxes, eu vou matar você! – bradou o rei possuído, e na hora Xerxes viu refletidos nos olhos dele, a lenda do Fantasma de Esparta, que como vocês sabem foi a nêmese dos Deuses...”

- Terry – ralhou o professor - se atenha apenas nos fatos, deixe os mitos para as aulas de filosofia ou artes – alguns alunos inclusive o próprio Terry riram.

“Então, Leônidas amputou o joelho direto de Xerxes com a espada, fazendo o rei persa cair no chão, a essa altura os soldados persas já tinham sido derrotados pelos espartanos. Aí nosso rei cortou os dois braços de Xerxes e os atirou longe, depois ele cravou a espada na barriga do filho da puta, e olhou bem nos olhos do Persa, intumescidos pelas lágrimas:
- O fantasma... – choramingou Xerxes!
- Estou bem vivo para ser um fantasma cão – Terry era um garoto, mas era realmente bom em interpretar.
Xerxes começara a chorar, quando Leônidas enfiou o braço amputado dentro de sua boca, e com a outra segurou sua cabeça na altura dos olhos.
- Eu posso estar em frangalhos persa – falou o rei salivando no rosto de Xerxes – Mas um espartano em frangalhos é o bastante para moldar o mundo – e fazendo força nos braços partiu...”

- Já está bom Terry! – interrompeu o professor – Você é um entusiasta mesmo!
E Terry voltou contente para seu lugar, sem sorrir para ninguém em especial!

  



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