quinta-feira, 30 de setembro de 2010

WALL-E (2008)

Irrevogavelmente a Pixar é bem sucedida em tudo aquilo que faz. Nenhuma outra empresa transpassa tanta qualidade e emoção em suas obras como a Pixar. Quem nunca se emocionou com as aventuras de Woody, Buzz Lightyear e todos os outros brinquedos de Andy , acompanhou apreensivamente a jornada de Marlin atrás de seu filho Nemo ao longo do oceano, ou torceu para Os Incríveis – que não fica abaixo de nenhum outro filme de super-herói – na sua luta contra o mal? Com uma temática voltada tanto para o público infantil quando para o adulto, a Pixar cria personagens carismáticos e imortais em histórias repletas de moral, e faz de Wall-E talvez a sua obra mais madura!
Quando eu fui assistir Wall-E, eu confesso que não esperava mais que um romancezinho simples protagonizado por robôs, e mesmo com toda qualidade da Pixar, assistir uma história que cativasse tanto quanto Toy Story ou Procurando Nemo estava além das minhas expectativas. Qual não foi minha surpresa ao término de Wall-E um dos filmes mais emocionantes e inteligentes dos últimos tempos, e na minha opinião a melhor e mais madura obra de arte da animação.
O planeta Terra foi coberto pelo lixo criado pelo homem, e todos os humanos “fugiram” do planeta para o espaço, esperando sua limpeza. Cabe a Wall-E essa árdua e perpétua tarefa, que ele executa com rigor durante anos e anos. Depois de tantos anos de solidão, a vida de Wall-E muda com a chegada de EVA, “uma” robozinha que veio à Terra com uma missão secreta. Imediatamente Wall-E se apaixona e fará de tudo para ficar com EVA, inclusive abandonar o seu posto e viajar pelo espaço, numa trama que vai alterar não só o seu destino, como o de toda a humanidade.
Elogiar a Pixar por sua qualidade, é como elogiar o oceano por sua imensidão, e obviamente que essa qualidade não podia faltar em Wall-E. A movimentação de cada personagem é magnífica, e ver opostos como o antiquado Wall-E com sua esteira andando para lá e para cá desastradamente, e a High-tech EVA – um tanto quanto destrutiva – voando displicentemente são sensações únicas. Outro fator que impressiona – e difere – é o cenário. O filme se desenvolve em dois ambientes: o primeiro é o planeta Terra devastado e poluído e o segundo se passa a bordo de uma espaçonave. Em ambos a qualidade técnica é estupenda, o cenário criado para Terra no melhor estilo pós-apocalíptico – que atualmente é referência para outros filmes nesse estilo - é maravilhoso e nenhum detalhe é esquecido, desde as pontes e prédios destruídos, até as imensas pilhas de entulho coletadas por Wall-E – que demorou muito tempo para faze-las – passando por detalhes pequenos como os objetos encontrados por ele, dos quais ele faz uma singela coleção. Já na nave o Sci-Fi é magnífico, e o detalhamento continua impressionante, como as trilhas que os robôs percorrem mantendo um clima de ordem permanente no local.
Mas mesmo com toda a qualidade visual que a Pixar dispõe, ela não é o Elemento – X do sucesso – é talvez a cereja do bolo – o grande trunfo da empresa são os personagens, e de todos os personagens criados pela empresa - fica difícil escolher um - Wall-E fica no topo – ao lado de todos os outros - é talvez o mais interessante – ou meu preferido, como quiserem! O “robozinho gari” é incansável – dãã – na sua labuta diária contra a poluição, e ao mesmo tempo um romântico nato, que passa suas noites assistindo filmes – uma fita para ser mais exato – e sonhando em se apaixonar. A ingenuidade de Wall-E contrasta com sua perseverança e carisma. As aventuras e situações engraçadas que o cabeça dura se mete são o bastante para conquistar o público de um dos personagens mais adoráveis dos últimos anos. Com EVA também não é diferente, com uma personalidade completamente diferente de Wall-E, ela tem todos os atributos opostos ao de Wall-E, e naquele velho clichê de que os opostos se atraem os dois se unem para formar um casal inesquecível. Nessa super galeria de personagens, até o comandante se destaca, pois ele que tinha tudo para ser um covarde, acaba também ganhando o gosto do público. 
Com elementos de cinema mudo, steampunk, comédia e drama a Pixar faz de Wall-E um Sci-fi humanitário, com temática apocalíptica porém abordagem bastante otimista, transformando-o numa das animações mais maduras da história. Vale lembrar que a temática naturalista de Wall-E que além do Oscar de Melhor Animação – entre outros prêmios – rendeu a seus roteiristas diversos prêmios humanitários.
Por tudo isso, e por ser Pixar é que Wall-E merece e tem que ser assistido por todos que gostem de um bom cinema ( seja animação ou não)! Para fechar com chave de ouro, os créditos são um brinde e embalados pelo excelente Single Down To Earth, mostram em figuras qual futuro teve a humanidade! Fantástico!




Direção: Andrew Stanton
Roteiro: Andrew Stanton, Pete Docter, Jim Reardon
Duração: 103min



Distribuidora: Pixar Animation Studios, Walt Disney Pictures


quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Frases

“Quando começa um tiroteio, você prefere estar armado, ou estar dentro da lei?"...  

"O pior não é eles venderem drogas nas escolas, o pior é as crianças comprarem"

  Onde Os Velhos Não Tem Vez, Cormac Mccarthy.

Baralho de Cartas



"...Em geral algum acontecimento imprevisível provocava a queda - alguém fechando a porta com força no outro cômodo, ou um bêbado esbarrando numa parede; ou os graves do toca disco automático eram altos demais. Outras vezes as construções caíam aparentemente sem nenhuma razão...
 - Está vendo isso Cimi? Para cada mãe que amaldiçoou Deus pelo filho morto na estrada, para cada pai que amaldiçoou o homem que o despediu da fábrica e o deixou sem trabalho, para cada criança que nasceu para sofrer e se pergunta o por quê, esta é a resposta. Nossas vidas são como essas coisas que eu construo. As vezes elas caem por alguma razão, as vezes elas caem sem nenhum motivo..."

                                         - Trecho do livro A Escolha dos Três de Stephen King.

terça-feira, 28 de setembro de 2010

O Livro de Eli (The Book Of Eli,2010)


Como seria o mundo depois do armagedon? O que sobraria da Terra depois da terceira guerra mundial? Não se sabe, mas após tantos filmes e livros com esse tema, já dá para se ter uma noção do que nos espera, e nesse clima pós apocalíptico futurista, que O Livro de Eli, bebendo das fontes de Mad Max, nos conta a história de um homem e seu destino, repleta de ação e filosofia.
O Livro de Eli tem todos os elementos necessários para o clima de fim do mundo: Tomadas de câmeras afastadas que expandem e revelam uma paisagem, sempre inóspita, desolada, com coisas destruídas aqui e acolá; uma tomada de cores cinzenta e amarelada, um mundo monocromático onde as esperanças deixaram de ser coloridas e radiantes; e um roteiro fabuloso que não se preocupa em explicar, focando simplesmente na viagem solitária de nosso herói, deixando as especulações, dúvidas, e explicações para a imaginação do espectador.
Eli (Denzel Washington) é um viajante solitário, que percorre um mundo destruído sempre em direção ao oeste, sua missão: guardar e proteger um certo livro até o seu destino. Em sua jornada ininterrupta, ele se depara com um vilarejo isolado, no melhor estilo “ultimo posto para o fim do mundo”, e é ali que Eli encontra o maior obstáculo no seu caminho: Carnegie(Gary Oldman), o chefe do vilarejo que faz a lei a sua maneira, e tem como único objetivo encontrar um livro: O livro de Eli.
O roteiro trabalha minuciosamente a jornada de Eli, mas de uma forma cautelosa, apática – no bom sentido – singela, criando um mundo em que o tempo corre devagar, como se o apocalipse tivesse parado por ali para descansar, ou como se já tivesse ido embora, e deixado tudo como deixou sem o tempo para fazer seu trabalho. O contraste vem com a monotonia sendo quebrada com cenas de batalha brilhantes, na qual Eli mostra uma habilidade ímpar no manuseio de seu facão ou revolver, criando um estilo de luta bastante original. 
Denzel Washington dá um show, esbanjando postura, atitude e uma sabedoria ímpar, ele dá vida a Eli, um Messias hardcore, que armado de seu facão é um oponente formidável para qualquer um que se opor a ele. Do outro lado da moeda, Gary Oldman é completamente o contrário. Um vilão decrépito, vil, e sem escrúpulos na tentativa de pegar o livro, e usar a sabedoria nele contida para expandir seu império. A trama ainda conta com Solara (Mila Kunis), que apesar de não ter peso fundamental no enredo, acaba sendo uma boa companhia para Eli, e uma possível possibilidade para um gancho.
O filme começa com Eli – a mais de “trinta invernos na estrada” – em sua inexorável jornada rumo ao oeste, e ao invés de se preocupar com a crônica, o roteiro dá mais atenção aos pequenos detalhes de um cotidiano que não existe mais, ao mostrar Eli pegando as botas de um defunto – ainda se preocupando com a aparência – e ouvindo músicas no seu Ipod – uma relíquia dos tempos passados, uma vez que é uma fortuna para Eli recarregar as baterias do aparelho. Outro ponto alto do filme são as “pequenas coisas”, em um roteiro que deixa muitas pontas soltas – propositalmente – alguns detalhes não passam em branco e são habilmente trabalhados: como a ausência total do dinheiro, onde a moeda corrente são peças que remetem ao passado; e até o vestuário, que passa longe de ser apenas um visual, e é parte da sobrevivência de cada um – os óculos escuros que poderiam ser só uma moda, são essenciais para a visão, pois sem a camada de ozônio (assim de supõe) os raios ultravioletas são letais para os olhos.
Para quem leu o livro (ou viu o filme) A Estrada,  vai encontrar em O Livro de Eli, muitos elementos presentes na história, como o cenário devastado, destruído, pós guerra; saqueadores assassinos percorrendo as estradas; canibalismo; e o livro ainda tem um viajante numa curta passagem como o nome de Eli (mas que em nada se assemelha do Eli do filme). A alma filosófica do filme, também está toda presente em O Livro de Eli, nas constantes questões do ser ou não ser, e dos rumos que a humanidade tomou!
Com elementos western, filosóficos e religiosos, O Livro de Eli é uma verdadeira fábula pós apocalíptica, que nos leva a questionar os rumos tomados pela sociedade. Pode não ser o típico filme que vira sucesso de bilheterias, mas tem todo o “jeitão” de filme Cult, inquestionavelmente recomendado!!!


Direção: Albert Hughes, Allen Hughes
Roteiro: Gary Whitta
Duração: 118min

Distribuidora: Sony Pictures


segunda-feira, 27 de setembro de 2010

A Epidemia (The Crazies, 2010)




Os mortos vivos estão no auge. Depois que os zumbis chegaram ao grande publico com Madrugada dos Mortos, e faturaram as bilheterias com Zumbilândia, e a confirmação da segunda temporada de The Walking Dead – que ainda nem estreou - parece que finalmente os portões do inferno se abriram para a caminhada dos mortos. È nesse nicho que se encontra A Epidemia – refilmagem do clássico Exército do Extermínio (The Crazies,1973), de Romero – um dos melhores filmes do ano, traz o terror e os sustos de um bom filme de zumbi em grande estilo, só que sem usar zumbis...
David Dutton (Timothy Olyphant) é o xerife de uma cidadezinha rural no interior dos EUA, que junto com seu parceiro Russel Clank (Joe Anderson), têm a missão de fazer a paz e harmonia reinar no local. Tudo isso começa a mudar, quando um morador invade uma partida de Beisebol portando uma arma, e é morto pelo xerife. Isso é só o primeiro sinal de uma epidemia que começa a tomar conta da cidade. Em poucos dias a doença se espalha, transformando os pacatos e responsáveis cidadãos em assassinos lunáticos. O exército chega no local, e começa as medidas de contenção da doença – que não são nenhum um pouco pacíficas  - e depois deixa o lugar já tomado pelo caos. Agora cabe a David Dutton, sua esposa Juddy Dutton (Radha Mitchell), Russel Clank e Becca Darling (Danielle Panabaker) sobreviverem e escaparem da região contaminada.
Tudo parece se encaixar perfeitamente criando uma atmosfera perfeita para o filme. O Condado de Ogden Marsh é aquele tipo de cenário perfeito, em que tudo dá errado e o apocalipse chega mais cedo. Uma cidadezinha agrícola, em que o tempo corre devagar e calmo, as pessoas levam suas rotinas tranquilamente um dia após o outro, e quando a loucura se espalha como uma epidemia, o tempo parece parar – como mostra a cena em que o xerife David Dutton está parado na principal avenida da cidade, sem nenhum sinal de vida a vista, numa aura de calmaria tão hostil, que se torna certa a presença de vários perigos ocultos.  
O choque de atmosferas, ocorre quando a calmaria é substituída pela velocidade, nas cenas violentas protagonizadas pela invasão do exército, contrastando ao máximo com a rotina da cidade. Nesse emaranhado de sensações, é que os atores desenvolvem seus personagens – destaque para Timothy Olyphant, que se mostra (mais uma vez) um exímio homem da lei, levantando as suspeitas que ele já foi um cowboy na outra encarnação.
O clima rural do cenário é de dar calafrios, e a imensidão dos campos, acaba causando um desconforto, principalmente ao encarar celeiros isolados e longínquos, e gigantescas máquinas agrícolas, que podem ganhar vida e avançar para cima de você num piscar de olhos.  
O posicionamento afastado da câmera, numa perspectiva mais horizontal, cria cenários amplos, enaltecendo o clima de solidão vivido pelos personagens, e ajuda a ambientar o terror, pois cenários maiores servem como convite para coisas ruins – é normal tomar sustos, quando você está focalizando o personagem principal, e não repara que lá ao fundo no canto superior da tela, alguém está à espreita. 
Os sustos são uma constante, e ao contrário dos zumbis tradicionais, os loucos de A Epidemia pensam e agem como um psicopata qualquer, podendo fazer armadilhas, ou pegar suas vítimas de surpresa. A visão de Breck Eisner para o terror do filme é excelente, e cria cenas maravilhosas, seja usando a amplidão do cenário: para filmar os sinistros campos isolados, ou o avião afundado no pântano; ou apelando para cenas claustrofóbicas: como a  cena do lava jato, ou a cena do louco e os prisioneiros nas macas.
Enquanto o grande blockbuster do momento, o já conhecido Resident Evil, aposta numa trama tosca, repleta de ação, com zumbis como enfeite de cenário, A Epidemia se mantem fiel à coluna dorsal do gênero, não de zumbis, mas se fixando no seu principal contexto: colapso da sociedade e sobrevivência, que além de um bom filme de terror, é mais uma crítica Romeriana ao sistema!



Direção: Breck Eisner
Roteiro: George Romero (Filme de 1973), Scott Kosar, Ray Wright
Duração: 101min
Distribuidora: Overture Films


sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Xeque - Mate (Lucky Number Slevin, 2006)


Apesar do filme se chamar em inglês Lucky Number Slevin, a tradução para o português como Xeque-Mate não poderia ter sido melhor. Além de várias alusões ao jogo: cavalos, reis, torres, os peões, a trama se comporta como uma verdadeira partida de xadrez, onde as peças são posicionadas, manipuladas e sacrificadas, até a hora do “Xeque-Mate”, e qual será o “rei” que vai cair?
O filme conta a história de Slevin (Josh Hartnett), que vai para a casa de um amigo passar as férias, porém confundido com o tal amigo que desapareceu misteriosamente, Slevin acaba ficando a mercê de dois chefões do crime: O Chefe (Morgan Freeman) e O Rabino (Ben Kingsley), em eterna guerra, acabam usando Slevin no seu joguete. Como se não bastasse essa onde azar, Slevin ainda está sendo vigiado pelo detetive Brikowski (Stanley Tucci) e o terrível assassino Sr. Goodkat ( Bruce Willis). Agora cabe a Slevin, escapar dessa enrascada em que se meteu, num filme em que tudo pode mudar, e as coisas podem não parecer o que eram antes.
Se diferindo de filmes de ação, e mafiosos em geral, o roteiro de Xeque-Mate é ousado. Um filme que a principio não demonstra muitas pretensões, fazendo uma mescla com dramaticidade e comédia, começa a se mostrar cheio de reviravoltas, onde acontecimentos passados, aparentemente obsoletos, se voltam para formar uma trama rica em detalhes e arrebatadora. A reta final do filme é envolvente, e segura o espectador de uma forma violenta, mas comete o erro de explicar um pouco demais os acontecidos, e arrasta um pouco o final.
Não se podia esperar menos que uma participação estupenda dos atores envolvidos. Xeque-Mate, que conseguiu reunir com bastante competência grandes nomes do cinema, e com uma brilhante atuação, os atores contribuem para a criação de personagens carismáticos, e engraçados.
Enquanto Morgan Freeman e Ben Kingsley, nos brindam com vilões extremamente carismáticos – e ao mesmo tempo sádicos – cheios de bons diálogos e algumas piadinhas na ponta da língua, Bruce Willis se apresenta como um assassino frio e praticamente sem emoções, onde a única coisa que importa é o dinheiro. Por outro lado, Josh Hartnett e Lucy Liu é o casalzinho do filme, sempre de auto astral, alegres e despreucupados – Josh Hartnett desempenha excelentemente o papel de alguém que mesmo a beira da morte, não apresenta temor algum. Essa miscelânea de personalidades, é outro ponto alto do filme, que as reviravoltas da trama  também pode modificar.
O filme pode não ter sido um estouro nas bilheterias, fugindo do grande publico, e da linha de “raciocínio” do cinema pipoca, Xeque–Mate aposta mais nos fãs de cinema mais tradicionais, e com certeza vai guardar seu espaço nas prateleiras de um colecionador.
  

Direção: Paul McGuigan
Roteiro: Jason Smilovic
Duração: 109min
Distribuidora: FilmEngine


segunda-feira, 20 de setembro de 2010

300


“... A chuva caía torrencialmente no campo de batalha, a lama se misturava ao sangue, criando enxurradas de água rubra, que parecia verter das enchentes do demoníaco Aqueronte. Os corpos que se perdiam em meio aquele pântano dantesco, fariam até Caronte se excitar!
Centenas de dezenas de milhares de corpos jaziam mortos: esquartejados, retalhados, perfurados, esmagados, tendo como epitáfio apenas lanças, espadas e escudos estilhaçados. Em frente à senda, um pequeno batalhão espreitava o inimigo, e na frente de batalha, estavam os últimos remanescentes do exército espartano: 7 guerreiros da elite espartana, todos machucados, cansados, mas revigorados pelo sangue dos inimigos que os banhava da cabeça aos pés!  A frente daqueles bravos soldados, ia o homem que moldou a história do mundo: Leônidas, o Rei de Esparta. Estava nu, com exceção do manto vermelho que cobria seu corpo esfolado; sua cabeleira se fora, em conseqüência de um corte profundo no crânio ainda nos primeiros dias de batalha, mas a barba espessa tingida de vermelho lhe cobria o queixo;  o braço esquerdo estava amputado até o meio do anti-braço, a ponta do osso saia do grave ferimento; o abdômen estava suturado por diversos curativos, que agora abertos vertiam sangue; duas ou mais costelas estavam quebradas, e uma das coxas estava trespassada por uma flecha. Ainda assim Leônidas não largava a espada, e encarava o inimigo como um lobo ferido e esfomeado encara uma ovelha solitária e saudável. Do outro lado da moeda: Xerxes, a Besta, escondido atrás de seus guardas pessoais, encarava Leônidas. O exército persa havia sido massacrado, e Xerxes sabia que aqueles 300 espartanos iriam entrar para a história, mas isso num interessava contanto que ele governasse o mundo - dessa forma poderia até mesmo contar a sua versão da história – e agora para descontar toda a afronta sofrida, ele iria pessoalmente degolar o decadente Leônidas.
De tamanho descomunal, o gigantesco Xerxes caminhou em direção a Leônidas vagarosamente, desfilando o seu extraordinário peso - e não se engane, todos os que o consideraram lento, tiveram seus crânios esmagados pelas mãos do monstro, em menos de segundos – se aproximando de um Leônidas, que parecia estar em pé apenas por teimosia. A guarda pessoal de Xerxes cercou Leônidas, que deu ordem para seus generais se afastarem – dizem que era deprimente ouvir a voz de Leônidas naquele estado – e Xerxes se aproximou para efetuar o abate!
Xerxes golpeou Leônidas com um punhal, em cima do ferimento da barriga, colocando a arma dentro do rei espartano com facilidade. Os generais de Esparta partiram para o ataque, mas foram bloqueados pela Guarda Real Persa, enquanto seu rei estava à mercê do demônio.
Leônidas jazia caído no chão, e como um cão babava nas sandálias Xerxes:
- Beije meus pés cão, e eu serei rápido e piedoso com você e seus homens! – Proferiu Xerxes!
Leônidas olhou para cima, com os olhos intumescidos de lágrimas...”

- Que porra Marc, será que você escutou alguma merda do que eu falei? – esbravejou o professor Thompson, tendo que interromper sua narrativa, para ralhar com um inconseqüente aluno, que cochilava displicentemente na aula.
- Foi mal “titcher”...
- Você pode continuar a história Marc?
- Lógico que posso, nós ouvimos desde sempre essa parada – tentou se manter concentrado, mas os efeitos toxicológicos falavam mais alto – no fim os persas perderam a guerra, e blá blá blá...
- Que sua alma vá direto para Dite seu bastardo! – estourou o professor – Você acha que eu num posso sentir seu cheiro daqui seu moleque? Você cheira à drogas! Vá direto para a diretoria, antes que eu mesmo de queixa de você – apontou cruelmente para a porta.
Marc saiu cambaleante, com o gingado característico de um entorpecido, com as calças caídas atrás, e camiseta larga, a mochila pendendo no ombro direito e sumiu sem olhar para ninguém.
- Bom onde eu estava... Terry será que você pode terminar a narrativa para mim? – Perguntou o professor sem olhar para ninguém em especial, e foi até sua bancada tomar um copo d’ água!
Terry se levantou timidamente. Ele sempre fora uma incógnita, não era o garoto mais popular da escola e embora nunca era visto com ninguém, tinha pelo menos um pequeno grupo de garotas que se derretia – ou se molhava -  por ele; não era lindo, mas tinha uma aparência misteriosa; tinha um perfil atlético, mas sempre usava roupas largas e exibia pouco seus músculos; era  muito inteligente, e sempre tinha as notas mais altas, e era aquele tipo de aluno preferido pelos professoras; era um cara isolado, não conversava com ninguém, não tinha amigos, era sempre alvo de gozações ou brincadeiras, mesmo sendo aparentemente mais forte do que muito de seus agressores, ele era aparentemente um cara pacífico. Usava calça jeans, camiseta branca, sobreposta por uma camisa xadrez azul, se levantou e foi até a frente da sala, e preparou para continuar a história, sem olhar para alguém em especial.

Leônidas jazia caído no chão, e como um cão babava nas sandálias Xerxes:
- Beije meus pés cão, e eu serei rápido e piedoso com você e seus homens! – Proferiu Xerxes!
Leônidas olhou para cima, com os olhos intumescidos de lágrimas... e cravou o osso partido do anti –braço nos pés de Xerxes:
- Xerxes, eu vou matar você! – bradou o rei possuído, e na hora Xerxes viu refletidos nos olhos dele, a lenda do Fantasma de Esparta, que como vocês sabem foi a nêmese dos Deuses...”

- Terry – ralhou o professor - se atenha apenas nos fatos, deixe os mitos para as aulas de filosofia ou artes – alguns alunos inclusive o próprio Terry riram.

“Então, Leônidas amputou o joelho direto de Xerxes com a espada, fazendo o rei persa cair no chão, a essa altura os soldados persas já tinham sido derrotados pelos espartanos. Aí nosso rei cortou os dois braços de Xerxes e os atirou longe, depois ele cravou a espada na barriga do filho da puta, e olhou bem nos olhos do Persa, intumescidos pelas lágrimas:
- O fantasma... – choramingou Xerxes!
- Estou bem vivo para ser um fantasma cão – Terry era um garoto, mas era realmente bom em interpretar.
Xerxes começara a chorar, quando Leônidas enfiou o braço amputado dentro de sua boca, e com a outra segurou sua cabeça na altura dos olhos.
- Eu posso estar em frangalhos persa – falou o rei salivando no rosto de Xerxes – Mas um espartano em frangalhos é o bastante para moldar o mundo – e fazendo força nos braços partiu...”

- Já está bom Terry! – interrompeu o professor – Você é um entusiasta mesmo!
E Terry voltou contente para seu lugar, sem sorrir para ninguém em especial!

  



domingo, 19 de setembro de 2010

A Revolução dos Bichos (Animal Farm, 1945)



Eric Arthur Blair, mais conhecido como George Orwell, foi um dos mais célebres autores do século XX. Em obras repletas de criticas as desigualdades sociais, se tornou um dos maiores autores anti-autoritaristas. Entre suas várias obras, duas em particular se destacam como verdadeiros marcos da literatura mundial: 1984, e A Revolução dos Bichos - que ao lado de O Senhor das Moscas (William Golding) e Apanhador no Campo de Centeio (  J. D. Salinger), é um dos clássicos da literatura do pós-guerra!
Conta a história de uma fazenda que foi abandonada pelo seu dono, e acabou sendo mantida pelos seus animais. A princípio os bichos criaram uma sociedade harmônica e bem organizada, para cuidar das suas tarefas e fazer a fazenda funcionar normalmente. Sob o juramento de sete mandamentos a fazenda prosperou:

“1. Qualquer coisa que ande sobre duas pernas é inimigo.
2. Qualquer coisa que ande sobre quatro pernas, ou tenha asas, é amigo.
3. Nenhum animal usará roupas.
4. Nenhum animal dormirá em cama.
5. Nenhum animal beberá álcool.
6. Nenhum animal matará outro animal.
7. Todos os animais são iguais.

Napoleão um porco que assumiu o poder depois de manipular contra seu antecessor, começa a comandar a fazenda e mudar drasticamente  a sua conduta. Passava a exigir mais horas de trabalho dos seus animais, e a ele próprio trabalhar pouco, além de negociar com os humanos. Com o passar do tempo, os 7 mandamentos têm uma “leve” alteração:

“1. Qualquer coisa que ande sobre duas pernas é inimigo.
2. Qualquer coisa que ande sobre quatro pernas, ou tenha asas, é amigo.
4. Nenhum animal dormirá em cama com lençóis.
5. Nenhum animal beberá álcool em excesso.
6. Nenhum animal matará outro animal sem motivo.
7. Todos os animais são iguais mas alguns são mais iguais que os outros.

No fim das contas os porcos passam a morar na mansão da fazenda, e andar sobre as duas patas...!
Uma obra de arte moderna que ironiza não só o Stalinismo – o animalismo é uma versão sarcástica do sistema político implantado por Stalin na união soviética, que acabou sendo acusado futuramente de trair seus próprios ideais – mostrando a decadência da utopia socialista, como também uma crítica a própria sociedade humana de uma forma geral. O porco utilizado como um simulacro humano não é mera coincidência!
Enfim, de narrativa rápida e fluente, a obra de George Orwell – que entrou na lista dos melhores romances do século XX – é um marco de categoria didática, que devia ser mais aproveitada nas escolas!!


Escritor: George Orwell





sábado, 18 de setembro de 2010

Horror em Amityville (The Amityville Horror, 1976)

A inquietante e perturbadora história de uma casa possuída pelo mal!
George e Kathy Lutz compram uma casa em Amityville e para lá se mudam com seus três filhos. O que seria um começo normal para toda e qualquer família – ignorando o fato de que a casa em questão é uma lendária mansão, onde Ronald Defeo matou a tiros os pais e seus quatro irmãos, alegando ter ouvido vozes do além – acaba se tornando um pesadelo, ao se depararem com acontecimentos sobrenaturais, e a presença de uma entidade diabólica muito perigosa.
Horário supostamente relacionado ao demônio! 
Jay Anson narra minuciosamente todos os 28 dias aterradores que a família Lutz passou na casa em companhia do espírito das trevas, e como a entidade perseguiu-os, e a todos aqueles que ousavam ajuda-los. O livro é realmente assustador, e a cada parágrafo um acontecimento diabolicamente bizarro é narrado de forma aterradora. Os tormentos sofridos pelos Lutz incluíam: portas arregaçadas, janelas abertas a noite, acontecimentos estranhos no famoso horário mítico 03h15min, objetos que se moviam sozinhos, a presença perceptível de entidades, odores terríveis, presença de efeitos ectoplásmáticos, e entre os mais aterradores: a presença perceptível de um demônio com cabeça de porco, que aparentemente só a filha do casal via!
Um clássico do gênero terror / exorcismo, o livro tem como cereja do bolo um fator muito singelo: foi completamente baseado em fatos reais! Bom isso é uma grande incógnita, rodeada de controvérsias! A mansão de fato existe, e foi mesmo o palco do crime aterrador narrado no livro, e todos os eventos foram confirmados pelos Lutz! No final do livro, um capítulo a parte tem o relatório feito por médiuns, parapsicólogos e ocultistas que estiveram no local, e todos afirmam que se sentiram mal no local, inclusive o porão, e o quarto do segundo andar – onde supostamente a entidade maligna repousava – e apesar de nunca nada ter sido confirmado, nem registrado, os especialistas afirmaram que a casa era habitada por fantasmas, e ainda continha uma presença efetivamente maligna: um demônio!
Suposto fantasma no interior da mansão!
Por outro lado, se afirma que Ronald Defeo só alegou ter ouvido vozes, para alegar insanidade no julgamento, e que os Lutz teriam deixado a casa por causa da falência de seus negócios. Contestando ainda mais a história sobrenatural, existem boatos que os Lutz receberam dinheiro para narrar a história, e que muito é contraditório, e ainda que o próprio Jay Anson teria anos depois confessado que tudo num passou de um golpe publicitário para vender o livro. A Igreja também não confirma nada, e desmente os infortúnios sofridos pelo padre causados pelo demônio. Ainda há o fato de que a famosa mansão foi colocada a venda a poucos dias, e os moradores que lá residem a mais de uma década, afirmaram nunca ter visto absolutamente nada estranho!  
Se é real ou não, talvez nunca venhamos a saber, mas o fato é que Horror em Amityville é um clássico da literatura de horror, completamente envolvente e assustador, e nos leva a fazer uma singela e intima pergunta: “Tudo bem que existe mais coisas entre o Céu e a Terra que nossa vã filosofia pode entender, mas que merda tem na cabeça de alguém que permanece mais de um dia numa casa que portas se abrem do nada, e um porco do mal é amigo da sua filha? Bom se coisas assim existem, é melhor o Constantine existir também!!!




Escritor: Jay Anson

112 Ocean Avenue, Amityville, Long Island


quinta-feira, 16 de setembro de 2010

O Sinaleiro ( Charles Dickens)

     Um dos maiores romancistas ingleses, sempre foi atraído pelo sobrenatural, e fantasmas sempre foi um dos temas mais usados em seus contos. Mas ao invés de optar pelo terror prático, sempre gostou de escrever mais. histórias com moral, cheias de lições de vida - como em Conto de Natal, na qual o velho rabugento e egoísta Scrooge, se depara com os fantasmas dos natal passado, presente e futuro, e se vê obrigado a mudar o seu jeito de ser, se quiser ter outro destino! Mais em meios de contos, cheios de lições de vida, um particularmente chama a minha atenção: O Sinaleiro! Meu conto favorito, é um conto de terror clássico, sem enfeites, assustador e trágico! Aqui vai ele para quem quiser conferir:





“Olá! Você, aí embaixo!”
Quando ele ouviu uma voz chamando-o, estava à porta de sua cabine, com uma bandeira na mão, enrolada na sua vareta curta. Considerando-se a natureza da área, imaginar-se-ia que ele não pudesse duvidar de onde vinha a voz; mas em vez de olhar para cima, onde eu me postara no alto do patamar praticamente por sobre a sua cabeça, ele virou-se e olhou para a Linha abaixo. Havia algo de estranho na sua maneira de fazê-lo, mas eu não, absolutamente não, poderia dizer o quê. Mas sei que era estranho o bastante para atrair minha atenção, embora sua silhueta estivesse parcialmente oculta e ensombrecida na passagem de nível abaixo, e a minha, bem acima dele, tão imersa no brilho incandescente de um crepúsculo rubro que eu tivera de proteger meus olhos com a mão antes de o ver.
“Olá! Aí embaixo!”
Depois de olhar para a Linha abaixo, ele voltou-se novamente e, levantando os olhos, viu minha silhueta no alto.
“Existe um caminho pelo qual eu possa descer e falar com você?”
Olhou para mim sem responder e olhei para ele, sem pressioná-lo imediatamente com uma repetição de minha pergunta ociosa. Foi então que houve uma vaga vibração no chão e na atmosfera, rapidamente transformando-se em uma violenta pulsação e progressiva agitação que me fez recuar, como se ela tivesse força para arrastar-me para baixo. Quando uma nuvem de vapor do trem veloz havia passado por mim, olhei novamente o nível inferior e o vi enrolando novamente a bandeira que ele desfraldara à passagem do trem.
Repeti minha pergunta. Após uma pausa, durante a qual ele pareceu me olhar com uma atenção concentrada, acenou com sua bandeira enrolada em direção a um ponto em meu patamar, distante umas duas ou três centenas de jardas.
Respondi-lhe “Está bem!” e desci àquele ponto. Lá, à força de olhar atentamente ao meu redor, encontrei um caminho escavado e irregular descendo em ziguezague, que segui.
O entalho era extremamente profundo e anormalmente abrupto. Era feito em pedra úmida, que se tornava mais gotejante e molhada à medida que eu descia. Por isso, o percurso foi lento o bastante para me dar tempo de recordar um ar singular de relutância ou obrigação com o qual ele me apontara o caminho.
Após descer o ziguezague o suficiente para vê-lo novamente, vi que ele se postara entre os trilhos pelos quais o trem passara recentemente, como se estivesse esperando que eu aparecesse. Tinha a mão esquerda no queixo e o cotovelo esquerdo pousava na mão direita, cruzada sobre o peito. Sua postura era de tal expectativa e cautela que me detive por um instante, surpreso.
Retomei minha descida e, caminhando cautelosamente até o nível dos trilhos e aproximando-me dele, vi que era um homem moreno e aparência doentia, com uma barba escura e sobrancelhas um tanto cerradas. Seu posto ficava no lugar mais solitário e lúgubre que eu jamais vira. De ambos os lados, um gotejante muro de pedras irregularmente recortadas, que a tudo ocultava, exceto uma faixa de céu; o panorama numa direção apresentava apenas um prolongamento torto desse grande calabouço; na outra direção, mais proximamente, avistava-se uma luz vermelha sombria e a entrada ainda mais sombria de um túnel negro, em cuja arquitetura maciça havia apenas um ar terrivelmente opressivo e irrespirável. Esse lugar recebia tão pouca luz do sol que exalava um cheiro de terra insuportável; e atravessava-o um vento tão frio que fiquei gelado, como se houvesse me distanciado do mundo real.
Antes que ele se movesse, eu fiquei tão próximo que poderia tocá-lo. Sem tirar os olhos de mim nem mesmo então, ele recuou um passo e levantou a mão.
Esse posto era solitário (disse eu) e havia chamado minha atenção quando de lá de cima olhara para baixo. Raramente aparecia um visitante, eu supunha; mas essa seria uma raridade indesejável? Talvez em mim ele pudesse ver um homem que igualmente fora encerrado em limites estreitos durante toda a vida mas que, finalmente livre, fora recentemente despertado para essas grandes obras. Assim dirigi-me a ele; mas não estou certo de que foram essas as palavras usadas, pois, além de eu não ser bom em entabular uma conversa, havia algo no homem que me intimidava.
Ele lançou um olhar muito estranho para a luz vermelha perto da boca do túnel e perscrutou-a, como se algo estivesse faltando ali e depois olhou para mim.
“Aquela luz fazia parte de sua ocupação? Não é?”
Respondeu numa voz baixa: “Você sabe que sim”.
Um pensamento terrível me veio à mente enquanto examinava atentamente os olhos fixos e o rosto saturnino, que se tratava não de um homem, mas de um espectro. Desde então tenho me perguntado se seu espírito não estava contaminado.
Quanto a mim, recuei. Mas, ao fazê-lo, detectei em seus olhos algum medo latente de mim. Isso pôs a correr o pensamento terrível.
“Você olha para mim”, falei, forçando um sorriso, “como se me receasse.”
“Eu não tinha certeza”, respondeu ele, “se o vira antes.”
“Onde?”
Ele apontou para a luz vermelha para onde olhara.
“Lá?”, disse eu.
Com um olhar atento e cauteloso, ele respondeu (mas com voz inaudível) que sim.
“Meu bom amigo, o que eu estaria fazendo lá? Mas, de qualquer forma, eu nunca estive lá, pode estar certo disso.”
“Acho que posso”, repetiu ele. “Sim, acho que posso.”
Seu rosto se desanuviou, assim como o meu. Respondeu às minhas indagações com solicitude e palavras precisas. Ele tinha muito que fazer ali? Sim, diria que sim, tinha muitas coisas sob sua responsabilidade, mas o que se exigia dele eram pontualidade e atenção, não um trabalho real — manual. Para mudar aquele sinal, ajustar aquelas luzes e girar essa maçaneta de ferro de quando e quando era tudo que tinha a fazer. Com relação àquelas muitas horas longas e solitárias que me chamavam tanto a atenção, ele podia apenas dizer que a rotina de sua vida assim se acomodara e que a ela se habituara. Ele aprendera lá uma linguagem — se conhecê-la apenas pela visão e ter formado suas próprias idéias toscas de sua pronúncia pudesse ser chamado de aprendizado. Ele também trabalhava com frações e decimais e tentara um pouco de álgebra; mas tinha dificuldade, desde criança, com números. Era-lhe necessário, quando em serviço, permanecer sempre naquela corrente de ar úmido e não podia nunca subir para a luz do sol, por entre aqueles altos muros de pedra? Ora, isso dependia da hora e das circunstâncias. Sob certas circunstâncias, havia menos trabalho no Ramal do que nos outros, independente de horas diurnas ou noturnas. Quando o tempo estava bom, ele às vezes saía um pouco daquelas sombras inferiores; mas, como estava sempre sujeito a chamadas de sua campainha elétrica, e nessas ocasiões precisava ficar atento a ela com ansiedade redobrada, o alívio era menor do que eu poderia supor.
Ele me levou ao seu cubículo, onde havia uma lareira, uma escrivaninha para um livro oficial no qual ele devia registrar certas entradas, um aparelho telegráfico com seu dispositivo de discagem, mostrador e agulhas e o pequeno sino de que falara. Quando expressei minha certeza de que ele perdoaria minha observação quanto ao fato de que era um homem instruído e (sem ofensa, esperava eu) talvez acima daquele cargo, ele observou que era extremamente raro encontrarem-se exemplos de ligeira discordância desse tipo entre uma grande quantidade de pessoas; que ouvira casos assim nas oficinas, na polícia, até mesmo naquele último recurso desesperado, o exército; e que ele sabia ser assim, mais ou menos, em qualquer equipe de uma grande companhia de estradas-de-ferro. Fora, quando jovem (se me fosse possível crer, sentado naquela cabina; até mesmo a ele era difícil crer), um estudante de filosofia natural e freqüentara cursos; mas havia se comportado mal, perdido suas oportunidades, decaído, e nunca mais se recuperara. Não se queixava disso. Fizera sua cama e deitara-se nela. Era tarde demais para fazer outra.
Tudo isso — que eu resumi aqui — ele o disse de jeito calmo, com seus olhares sérios divididos entre mim e o fogo. Ele intercalava a palavra “Senhor” de tempos em tempos e especialmente quando se referia a sua juventude: como se me pedisse para compreender que ele não pretendia ser senão o que eu nele via. Diversas vezes ele foi interrompido pelo sininho e precisou ler mensagens e enviar respostas. Uma das vezes, teve de postar-se além da porta e agitar uma bandeira enquanto um trem passava e trocar algumas palavras com o foguista. Observei que, no desempenho de seus deveres, ele era notavelmente pontual e atento, interrompendo seu discurso numa sílaba e permanecendo em silêncio até terminar o que tinha a fazer.
Em suma, eu daria as melhores recomendações a respeito desse homem para esse emprego, salvo pela circunstância de que, enquanto falava comigo, interrompeu-se duas vezes, empalideceu, virou seu rosto para o sininho que não estava tocando, abriu a porta da cabina (que ficava fechada para impedir a umidade insalubre) e olhou para a luz vermelha próxima à boca do túnel. Em ambas as ocasiões voltou para o fogo com o ar inexplicável que eu observara, mas não fora capaz de definir, quando ainda estávamos muito distantes um do outro.
Eu disse, quando me levantei para despedir-me: “Você quase me fez pensar que encontrei um homem feliz”. (Mas devo confessar que o disse para animá-lo).
“Creio que era”, replicou ele, na voz baixa com que falara pela primeira vez, “mas estou perturbado, senhor, estou perturbado.”
Ele teria retirado as palavras, se pudesse. Mas dissera-as, contudo, e eu rapidamente agarrei a deixa.
“Com o quê? O que o perturba?”
“É muito difícil explicá-lo, senhor. É algo sobre o que é muito difícil falar. Se algum dia o senhor me fizer uma outra visita, tentarei contar-lhe.”
“Mas eu tenho realmente a intenção de fazer-lhe uma outra visita. Diga-me, quando poderei fazê-lo?”
“Saio de manhã cedo e volto novamente amanhã às dez da noite, senhor.”
“Virei às onze.”
Mostrou-se agradecido e foi até a porta comigo. “Acenderei minha luz branca, senhor”, disse ele, naquele seu tom de voz baixa que lhe era peculiar, “até o senhor encontrar seu caminho para cima. Quando chegar lá, não grite! E quando estiver no topo, não grite!”
Sua atitude parecia fazer o lugar me parecer mais frio, mas eu nada mais disse senão “Está bem”.
“E quando descer amanhã à noite, não grite! Permita-me fazer-lhe uma última pergunta. O que o fez gritar ‘Alô! Alô, aí embaixo’ esta noite?”
“Sabe-se lá”, disse eu. “Gritei algo assim...”
“Não assim, senhor. As palavras foram exatamente essas. Conheço-as bem.”
“Admito que foram essas as palavras. Eu as disse, sem dúvida, porque eu o vi embaixo.”
“Por nenhum outro motivo?”
“Por que outro? Que outro motivo poderia haver?”
“Não teve nenhuma sensação de que lhe eram comunicadas de algum modo sobrenatural?”
“Não.”
Ele me desejou boa noite e levantou sua lanterna. Andei pelo lado da linha de trilhos abaixo (com uma sensação muito desagradável de um trem vindo atrás de mim), até encontrar o lugar de subida. Era mais fácil subir do que descer, e eu voltei para meu hotel sem quaisquer incidentes.

II

Pontualmente, coloquei meu pé no primeiro entalhe do ziguezague na noite seguinte quando os relógios ao longe estavam batendo as onze horas. Ele estava a minha espera no fundo, com sua luz branca acesa. “Não gritei”, disse eu, quando nos aproximamos; “posso falar agora?”. “Claro que sim, senhor.” “Boa noite, então, e aqui está minha mão.” “Boa noite, senhor; aqui está a minha.” Com isso, caminhamos lado a lado até sua cabina, entramos, fechamos a porta e sentamo-nos ao lado do fogo.
“Decidi, senhor”, começou ele, inclinando-se para frente assim que nos sentamos e falando num tom pouco acima de um sussurro, “que não precisará perguntar duas vezes sobre o que me perturba. Tomei o senhor por outra pessoa ontem à noite. O que me perturba.”
“Esse engano?”
“Não. A outra pessoa.”
“Quem é ela?”
“Não sei.”
“Parecida comigo?”
“Não sei. Nunca vi o rosto. O braço esquerdo está na frente do rosto, e o braço direito está acenando. Acenando com violência. Assim.”
Segui seu gesto com meus olhos e era o de um braço a agitar-se com extrema comoção e veemência. “Pelo amor de Deus, saia do caminho!”
“Numa noite enluarada”, disse o homem, “eu estava sentado aqui quando ouvi uma voz gritar: Alô! Aí embaixo!' Fiz um movimento, olhei daquela porta e vi essa pessoa de pé, ao lado da luz vermelha perto do túnel, acenando exatamente como lhe mostrei agora. A voz parecia rouca de tanto gritar e gritava: ‘Cuidado! Cuidado!’. E depois novamente: ‘Alô! Aí embaixo! Cuidado!’. Peguei minha lanterna, acendi a luz vermelha e corri em direção à figura, dizendo: ‘O que há de errado? O que aconteceu? Onde?’. Eu estava perto da escuridão do túnel. Avancei para bem perto dele, pois estranhei o fato de manter a manga diante de seus olhos. Corri para ele e, quando estendi minha mão para puxar a manga, ele desapareceu”.
“Dentro do túnel?”, indaguei.
“Não. Corri para dentro do túnel, quinhentas jardas. Parei e levantei minha lanterna acima da cabeça e vi as figuras de uma certa distância e as gotas de umidade descendo pelas paredes e escorrendo pelo arco. Corri para fora novamente, mais rápido do que correra para dentro dele (pois tenho um pavor mortal do lugar) e olhei tudo em volta da luz vermelha com a minha própria luz vermelha e subi a escada de ferro até a galeria acima e desci novamente, correndo de volta para cá. Telegrafei para ambos os lados: ‘Houve um alerta. Alguma coisa errada?’ A resposta de ambos foi: ‘Tudo certo?’.”
Afastando o lento toque de um dedo gelado a subir pela minha espinha, expliquei-lhe que aquela imagem devia ser uma ilusão de óptica e que se sabia que essas imagens, originadas por doença dos nervos delicados que comandam as funções dos olhos, muitas vezes perturbavam os pacientes, alguns dos quais haviam reconhecido a natureza de sua ansiedade e até mesmo comprovado-a por experiências consigo mesmos. “Quanto ao grito imaginário”, expliquei, “ouça apenas por um momento o vento nesse vale artificial enquanto falamos com vozes tão baixas e como ele faz dos fios do telégrafo uma harpa extremamente sonora!”
Tudo isso estava muito certo, respondeu ele, depois que já estávamos sentados por bons minutos, e já deveria ter pensado no vento e nos fios, ele que tantas vezes passara longas noites de inverno ali, sozinho e em vigília. Mas rogou-me atentar para o fato de que ainda não terminara.
Pedi desculpas, e ele lentamente acrescentou estas palavras, tocando em meu braço:
“Seis horas após a Aparição, aconteceu o famoso acidente desta Linha e durante dez horas os mortos e feridos foram trazidos de dentro do túnel, sobre o ponto em que estivera a imagem”.
Um calafrio desagradável subiu-me pelo corpo, mas fiz o possível para ignorá-lo. Era inegável, repliquei, que se tratava de uma coincidência notável e na medida certa para impressioná-lo. Mas era inquestionável que coincidências notáveis ocorriam sempre e que elas devem ser levadas em conta ao lidar com assuntos desse tipo. Embora eu certamente devesse admitir, acrescentei (pois julgava prever que ele iria contra-argumentar) que homens de bom senso geralmente não incluem coincidências nas previsões dos acontecimentos cotidianos.
Ele novamente rogou-me que atentasse para o fato de que não terminara.
Novamente pedi desculpas por tê-lo interrompido.
“Isso”, disse ele, pondo a mão em meu braço de novo e olhando por sobre o ombro com olhos vazios, “aconteceu exatamente um ano atrás. Seis ou sete meses se passaram, e eu me recobrara da surpresa e do choque quando uma manhã, ao amanhecer, de pé naquela porta, olhei para a luz vermelha e vi o espectro novamente”. Ele parou, com um olhar fixo para mim.
“Ele gritou?”
“Não. Ficou em silêncio.”
“Ele acenou?”
“Não. Encostou-se ao poste da lanterna, com as duas mãos diante do rosto. Assim.”
Mais uma vez, segui seu gesto com os olhos. Era um gesto de luto. Já vi essa postura em figuras de pedra sobre túmulos.
“Você foi até ele?”
“Entrei e sentei-me, em parte para recobrar o domínio de meus pensa-mentos, em parte porque me sentia a ponto de desmaiar. Quando fui novamente até a porta, a luz do dia brilhava e o fantasma desaparecera.”
“Mas nada mais aconteceu? Foi tudo?”
Ele me tocou o braço com seu dedo indicador duas ou três vezes, acompanhando cada um desses gestos com uma inclinação da cabeça, aterrorizado.
“Naquele mesmo dia, quando um trem saiu do túnel, notei, numa janela do vagão para o meu lado, o que parecia uma confusão de mãos e de cabeças, e algo acenava. Eu o vi, a tempo de fazer um sinal para o foguista parar. Ele desligou e freou, mas o trem arrastou-se outras cento e cinqüenta jardas ou mais. Corri para ele e, enquanto o acompanhava, ouvi gritos agudos e choros terríveis. Uma bela e jovem senhora morrera instantaneamente em um dos compartimentos e foi trazida para cá; deitaram-na neste chão, aqui, entre nós dois.”
Involuntariamente, recuei minha cadeira, enquanto meu olhar ia das tábuas para as quais ele apontava para ele próprio.
“Verdade, senhor. Verdade. Foi exatamente assim que aconteceu, estou lhe dizendo.”
Eu não conseguia pensar em nada para dizer, nada que conviesse, e minha boca estava muito seca. O vento e os fios receberam a história com um longo gemido de lamento.
Ele recomeçou. “Agora, senhor, ouça bem e avalie a perturbação de meu espírito. O espectro voltou, uma semana atrás. Desde então, ele está lá, de quando em quando, intermitentemente.”
“Ao lado da lanterna?”
“Ao lado da lanterna de alerta.”
“O que ele parece estar fazendo?”
Ele repetiu, se possível com uma emoção e veemência maior, a gesticulação anterior de “Pelo amor de Deus, saia do caminho!”
Depois continuou: “Não tenho paz ou tranqüilidade por causa disso. Ele me chama, durante minutos seguidos, de uma forma angustiada, ‘Aí embaixo! Cuidado! Cuidado!’ Ele fica acenando para mim. Ele toca meu sininho...”
Nesse momento, eu o interrompi. “Ele tocou seu sino ontem à noite, quando eu estava aqui e você foi até a porta?”
Duas vezes.
“Ora, veja”, disse eu, “como sua imaginação o engana. Meus olhos estavam no sino, e meus ouvidos atentos, e se estou vivo, ele NÃO tocou então. Não, nenhuma vez, exceto do modo natural das coisas físicas, quando a estação comunicou-se com você.”
Ele balançou a cabeça. “Eu nunca me enganei, senhor. Nunca confundi a badalada do espectro com a humana. O badalar do fantasma é uma vibração estranha no sino que não provém de nada mais, e não afirmei que não se vê o sino balançar. Não surpreende que o senhor não o tenha ouvido. Mas eu ouvi.”
“E o espectro pareceu estar lá, quando você olhou para fora?”
“Ele estava lá.”
“Ambas as vezes?”
Repetiu com firmeza: “Ambas as vezes.”
“Você poderia ir até a porta comigo e procurá-lo agora?”
Ele mordeu o lábio inferior como se relutasse um pouco, mas levantou-se. Abri a porta e fiquei no degrau, enquanto ele se deteve na soleira. Ali estavam as altas paredes de pedras molhadas do entalho. Ali estavam as estrelas bem acima delas.
“Você o vê?”, perguntei-lhe, observando atentamente seu rosto. Seus olhos estavam arregalados e fatigados; mas não muito mais do que haviam estado os meus quando os dirigira atentamente para o mesmo ponto.
“Não”, respondeu ele. “Ele não está lá.”
“Exatamente”, disse eu.
Entramos novamente, fechamos a porta e sentamo-nos. Eu estava pensando em como aproveitar essa vantagem, se é que podemos chamá-la assim, quando ele retomou a conversa de um modo tão direto, admitindo que não poderíamos discordar seriamente diante do fato, que senti estar em uma posição muito desfavorável.
“A esta altura o senhor compreenderá perfeitamente”, disse ele, “que o que me perturba de modo tão terrível é a pergunta: o que quer dizer o espectro?”
Eu não tinha certeza, disse-lhe eu, de tê-lo compreendido perfeitamente.
“Ele está me avisando do quê?”, disse ele, ruminando, os olhos no fogo e apenas de vez em quando os voltando para mim. “Qual é o perigo? Onde está o perigo? Há um perigo à espreita, em algum lugar na linha. Alguma terrível desgraça está para acontecer. Quanto a isso não há dúvida, nesta terceira vez, depois do que aconteceu antes. Mas com certeza isso me atormenta. O que posso fazer?!”
Ele tirou seu lenço e enxugou as gotas de suor de sua testa febril.
“Se eu telegrafar: Perigo, para um dos lados ou para ambos, não posso alegar nenhum motivo para tanto”, continuou ele, enxugando as palmas das mãos. “Eu iria me arrumar problemas e não adiantaria nada. Eles pensariam que estou louco. O que sucederia seria isto: Mensagem ‘Perigo! Cuidado!’ Resposta: ‘Que Perigo? Onde?’ Mensagem: ‘Não sei. Mas, pelo amor de Deus, cuidado!’ Eles me demitiriam. O que mais poderia fazer?”
Seu sofrimento causava grande pena. Era a tortura mental de um homem consciencioso, oprimido intoleravelmente por uma responsabilidade ininteligível que envolvia vidas.
“Quando ele ficou pela primeira vez sob a luz de perigo”, continuou, afastando da testa seus cabelos escuros e esfregando as mãos pelas têmporas, num gesto de desespero febril, “por que não me dizer onde esse acidente devia acontecer — se ele devia acontecer? Por que não me dizer como ele poderia ter sido evitado — se ele pudesse ser evitado? Quando de sua segunda aparição, ele escondeu o rosto; por que, em vez disso, não me disse, ‘Ela vai morrer. Diga-lhes para mantê-la em casa?’ Se ele viesse, nessas duas ocasiões, apenas para me mostrar que seus avisos eram verdadeiros e portanto para preparar-me para o terceiro, por que simplesmente não me avisar agora? E eu, Deus me ajude, um simples e pobre sinaleiro neste lugar solitário! Por que não ir até alguém com credibilidade e poder para agir?!”
Quando o vi nesse estado, compreendi que, em favor do pobre homem, assim como para a segurança do público, o que me cabia fazer no momento era acalmá-lo. Conseqüentemente, deixando de lado toda discussão entre nós sobre o que era real e o que não era, argumentei com ele que quem quer que exercesse tão conscienciosamente sua função fazia-o bem, e que ao menos para seu consolo ele compreendia seu dever, embora não compreendesse essas aparições malditas. Nesse esforço eu me saí muito melhor do que na tentativa de convencê-lo de que estava errado. Ele ficou calmo; as ocupações inerentes a seu posto, à medida que a noite avançava, começaram a requisitar cada vez mais sua atenção, e eu o deixei às duas da manhã. Eu me ofereci para ficar a noite toda, mas ele absolutamente não quis.
Que eu mais de uma vez olhei para trás, para a luz vermelha, enquanto subia pelo caminho, que eu não gostava da luz vermelha e que teria dormido muito mal se minha cama estivesse sob ela são fatos que não vejo motivo para esconder. Nem gostei das duas seqüências do acidente e da moça morta. Não vejo motivo para esconder isso também.
Mas o que mais me ocupava o pensamento era a reflexão sobre como deveria agir, agora que me fora feita uma tal revelação. Eu verificara que o homem era inteligente, atento, escrupuloso e pontual; mas por quanto tempo ele continuaria assim, nesse estado de espírito? Apesar de sua posição subordinada, ele tinha uma responsabilidade da maior importância. Gostaria eu (por exemplo) de apostar minha própria vida nas possibilidades de ele continuar a executá-la com perfeição?
Incapaz de superar uma sensação de cometer de certa forma uma traição se comunicasse aos seus superiores na Companhia o que ele me dissera, sem primeiro ter uma conversa franca e propor uma solução intermediária para ele, resolvi por fim oferecer-me para acompanhá-lo (e também guardar segredo por uns tempos) ao melhor médico especialista que pudéssemos consultar na região e pedir sua opinião. Uma mudança no seu turno de serviço ocorreria na noite seguinte, segundo ele me informara; ele estaria livre uma hora ou duas após o amanhecer e voltaria logo depois do anoitecer. Tínhamos marcado nosso encontro conforme esse esquema.
A noite seguinte estava agradável, e eu saí cedo de casa, a fim de desfrutá-la. O sol ainda não se pusera quando atravessei a calçada próxima do topo do entalhe profundo. Eu estenderia minha caminhada por uma hora, disse comigo, meia hora para ir e meia hora para voltar, e então já seria hora de ir à cabina do meu sinaleiro.
Antes de prosseguir meu passeio, pisei na borda e mecanicamente olhei para baixo, no lugar de onde o vira pela primeira vez. Não consigo descrever o calafrio que me percorreu quando, junto à boca do túnel, vi o vulto de um homem, com sua manga esquerda sobre os olhos, acenando veementemente com o braço direito.
O indizível horror que me sufocava passou num minuto, pois logo vi que esse vulto era de fato um homem e que havia um pequeno grupo de outros homens em pé a uma pouca distância dali, para quem ele parecia estar encenando o gesto que fizera. A luz de perigo ainda não estava acesa. Junto ao poste, estava uma pequena tenda baixa, que nunca vira antes, com suportes de madeira e lona. Não parecia maior do que uma cama.
Com uma sensação inelutável de que havia algo errado — com um súbito medo do sentimento de culpa pelo erro fatal de ter deixado o homem ali e não ter feito com que enviasse alguém para supervisioná-lo ou corrigir o que ele fazia — desci o caminho chanfrado o mais depressa que pude.
“O que aconteceu?”, perguntei aos homens.
“O sinaleiro foi morto esta manhã, senhor.”
“Não é o homem daquela cabina, é?”
“É sim, senhor.”
“O homem que conheço?”
“O senhor o reconhecerá, se o conhecia”, disse o homem que era um porta-voz, descobrindo solenemente sua própria cabeça e levantando uma ponta da lona, “pois seu rosto não se alterou”.
“Meu Deus! Como isso aconteceu, como isso aconteceu?”, perguntei, virando para um e para outro, enquanto a cabina era novamente fechada.
“Ele foi morto por uma locomotiva, senhor. Ninguém na Inglaterra conhecia melhor seu trabalho do que ele. Mas, não se sabe por quê, ele não saiu do trilho externo. Foi em pleno dia. Ele havia acendido a luz e tinha na mão a lanterna. Quando a locomotiva saiu do túnel, ele estava de costas para ela e foi atingido. Aquele homem ali estava no comando e mostrando como aconteceu. Mostre a este cavalheiro, Tom.”
O homem, que usava uma capa tosca e escura, recuou para o lugar onde estivera antes, junto à boca do túnel.
“Depois da curva do túnel, senhor”, disse ele, “eu o vi no fim, como que numa luneta. Não deu tempo de diminuir a velocidade, e eu sabia que ele era muito cuidadoso. Como ele pareceu não ouvir o apito, eu desliguei a máquina quando estávamos próximos dele e chamei-o o mais alto que pude.”
“O que você disse?”
“Eu disse: Alô, aí embaixo! Cuidado! Cuidado! Pelo amor de Deus, saia do caminho!”
Levei um choque.
“Ah!, foi horrível, senhor. Eu não parei de gritar para ele. Pus meu braço na frente dos olhos, para não ver, e acenei este outro até o último momento; mas de nada adiantou.”
Para não prolongar a narrativa com detalhes acerca de algumas das estranhas circunstâncias mais do que de outras, posso, ao encerrá-la, sublinhar a coincidência de que o alerta do maquinista da locomotiva incluía não apenas as palavras que o infeliz sinaleiro repetira para mim e que dizia persegui-lo, mas também as palavras que não ele, mas eu próprio associara — e apenas mentalmente — ao gesto que ele imitara.


Autor: Charles Dickens