domingo, 1 de agosto de 2010

Acerto de Contas

A chuva acabava de castigar o leste da cidade e agora se encaminhava para o norte, deixando para trás um ar de destruição e abandono, em meio a esta paisagem pseudo-apocalíptica que uma moto se deslocava a toda velocidade. A avenida era larga e permitia que o solitário motoqueiro sem capacete costurasse os carros sem nenhuma dificuldade.
O subúrbio, um local evitado pela grande maioria dos cidadãos - pelo menos os considerados normais - um grande conglomerado de becos e vielas onde todo tipo de atividade ilegal era praticada: assaltos, roubos, estupros, assassinatos, seqüestros, e todo e qualquer tipo de tráfico. É para lá que o solitário motoqueiro se direciona.
O motoqueiro sai da avenida principal sem qualquer precaução, arrancando palavrões e buzinadas dos demais motoristas, e por meio de um desvio logo chega na fronteira do subúrbio. Como bom conhecedor do local, ele se desloca entre os becos quase sem diminuir a velocidade. Em seu trajeto ele passa por várias vielas alagadas e enxurradas, sinais que a chuva ali foi violenta. Concentrado ele nem ouve um casal de punk’s xingar pois no meio da relação sexual ao ar livre, foram encharcados pelo motoqueiro que passou a toda por uma poça d’água. Dois quarteirões a frente, ele para e desce da moto, estacionando-a na frente de um prédio.
Ele da à volta pelos fundos - se bem que no subúrbio todo lado pode ser considerado o fundo - e para na lateral do prédio olhando para as janelas. Uma olhada mais objetiva revela a janela que realmente importa, a luz acesa faz com que um leve sorriso apareça sorrateiramente em sua face. Olhando atentamente uma poça d’água ele vê refletido nela seu reflexo: os cabelos longos caem desembrenhados pelos ombros, escondendo a gola da camiseta e do sobretudo ambos pretos, em seu rosto uma palidez sobrenatural é contrastada pelas marcas escuras em volta dos olhos. Ele fita seus olhos inexpressíveis atentamente, mas estes refletidos na lâmina da faca que ele segura em mãos.
Carl Jhonson xinga após se cortar com o barbeador. Com o auxílio do espelho ele limpa o sangue e se afasta para dar uma olhada melhor no corpo nu: o peito largo e peludo não é nada se comparado a imensa barriga cheia de banha, o cabelo cortado rente dá maior ênfase ao início de calvície nas têmporas, deixando a mostra um rosto grande típico de um canastrão sádico. Uma apalpada na genitália precede uma gargalhada típica de um chefão da máfia com um ego maior do que sua barriga obesa – um simulacro caricato da lua.
- Jennifer, ô Jennifer? Cadê você sua piranha descabaçada? – Carl grita chamando a prostituta que ele alugou para esta noite.
Sem resposta.
- Cadê você piranha dos infern... – ele para subitamente na porta da sala com um olhar de espanto, e o coração lhe saltando a boca.
Na sala em frente à janela entreaberta, está parada uma figura nada amistosa, vestida de um sobretudo negro, coturnos e cabelos longos remexidos pelo vento.
- Nnnaaão vovovocê não! – Carl gagueja e cai no chão largando a toalha e correndo pelado em direção ao quarto.
Ele entra desesperado no quarto à procura de sua pistola nas gavetas.
- Procure na gaveta de baixo – diz o estranho que já esta dentro do quarto, do outro lado da cama.
- Como chegou aqui? Você estava na sala! – Carl cai mais uma vez sentado, mas desta vez empunhando sua Magnun – Toma isso seu merdinha.
Carl dispara, o silenciador da arma impede que alguém ouça, mas antes que o projétil atinja o alvo, o estranho dá um salto se desviando da bala e parte em direção a Carl, que rastejando para trás faz mais três disparos. O estranho numa mistura de saltos, e manobras se desvia de todos os disparos e crava sua adaga em Carl, entre o pescoço e a clavícula, gerando um ruído seco, fazendo o mafioso contorcer todos os músculos de dor.
- Se eu retirar a adaga você vai sangrar até morrer, e melhor me dizer os nomes, rápido! – o estranho fala com uma calma serena passando a mão pela cabeça de Carl num gesto de “carinho”.
Carl com os olhos revirados, responde num sussurro doloroso.
- Henry e Marco Cruciollo. Por favor não me mate, eu nunca mais...
A frase é interrompida pela rápida remoção da adaga, fazendo um jato de sangue esguichar na parede, uma outra estocada e Carl cai no chão já sem voz.
- Como se sente estando no lugar da vítima? – o estanho sussurra no ouvido de Carl, antes de dar mais uma estocada.
Jennifer caminha em direção ao quarto de seu cliente. Ela deixa a calcinha no meio do caminho e caminha nua pela casa, pois sabe que Carl não liga para preliminares. Ela esta pronta para a noitada, não que esteja afim, mas o dinheiro de Carl lhe dá o tesão necessário para o serviço ser bem feito. Ela prepara o andar sensual que todo homem adora e entra no corredor rebolando levemente, mas para abruptamente com a cena que vê: Um homem de preto de sobretudo caminha em sua direção carregando na mão uma adaga ensangüentada. Atrás dele o corpo de Carl jaz todo perfurado no chão. Ela se encosta na parede e o assassino para de frente a ela.
- Por favor – o coração parece bater mais alto que os coturnos do assassino no assoalho de madeira - Não me mate... – a frase é interrompida por um leve beijo que ele dá nos lábios dela.
O assassino limpa a adaga no interior das coxas da prostituta e sai fechando a janela normalmente. Depois de descer as escadas externas ele pega a moto e sai tranquilamente pela noite, em sua mente nada de remorso ou flash’s, em sua mente apenas dois nomes que ele conhece muito bem: “Henry Cruciollo e Marco Cruciollo”.
Jennifer ainda sentada no corredor, se recupera do susto. Limpa as coxas com nojo e prepara suas roupas para sair dali rapidamente. Se a polícia pegar ela lá, ela sabe o que vai acontecer: uma noite sendo espancada na cadeia para confessar algo que não fez, pois para a polícia é mais fácil condenar alguém que está ao seu alcance do que procurar um assassino sem nome pela noite. Antes que consiga pegar sua jaqueta as sirenes tocam na rua lá em baixo. Ela olha para a janela e vê a viatura parada do lado do prédio, um policial com um rádio nas mão procura algum vestígio na escada, provavelmente alguém viu o estranho invadir o apartamento pela janela. Ela corre em direção a porta, mas a campainha toca antes que ela chegue na cozinha. Jennifer maldiz sua sorte, relaxa e respira fundo, joga a jaqueta na cadeira ao lado e parte para atender a campainha toda sexy, esta noite ela vai prestar seu serviço de graça, e ela odeia isso.

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