quarta-feira, 25 de agosto de 2010

O Condenado (Gallows Thief, 2005)

Bernard Cornwell, o aclamado escritor de romances históricos, cultuado pela publicação de mais de 40 obras, todas contendo descrições históricas primorosas, e enredos cativantes, agrada a todos... quase todos!
A narrativa de Cornwell, realmente é riquíssima em detalhes, e ele consegue passar para o leitor toda a atmosfera dos tempos medievais, porém desenvolve pouco o roteiro, se atendo em muitas batalhas e principalmente, enaltecendo toda a sordidez da humanidade: luxúria, pedofilia, e machismo excessivo são muito lembrados por Cornwell, que passa a imagem – verdadeira, porém um tanto negativa demais – de um tempo em que a liberdade de expressão não existia. Com esses efeitos, as obras de Cornwell, se tornam um pouco cansativas demais, e os personagens na sua grande maioria, são meros produtos do sistema e não cativam.
O Condenado conta a história do Capitão Rider Sandman, que é chamado para uma investigação, a cerca de um prisioneiro que está a beira da execução. Sandman, conta com a ajuda de seus amigos Sam Berrigan, Mrs Sally e Lorde Alexander, na corrida contra o tempo para tirar um inocente da forca. Na sua jornada ele vai percorrer uma Londres imersa na sua própria podridão!
O primeiro capítulo, começa com uma descrição extremamente detalhada, de prisioneiros a caminho da forca, e a presença de uma mulher como condenada – inocentemente, como era comum nos tempos de soberania da Igreja – é o trunfo para prender a atenção do leitor, age como um cartão de visitas maravilhoso... de uma obra que não é lá essas coisas.   
Depois de todo o drama do capítulo inicial, a história cai de rendimento. Os personagens não enchem os olhos. Sandman é um personagem honesto, seguro nas suas ideologias, e bastante honrado, mas alguma coisa faltou para cativar, talvez toda a sua benevolência, seja contraditória com o perfil de um capitão que comandou tropas britânicas na lendária batalha de Waterloo. Sam Berrigan é também um ex soldado, e topa com Sandman, como um adversário, porém o lado bom – de alguém que cometeu muitos crimes, nota-se no enredo – dele fala mais, alto e de uma hora para outra, Sandman e Berrigan, se tornam os melhores amigos que já existiram no mundo... no mínimo improvável. Mrs Sally é a garota bonita, que assim como no cinema, parece fazer o papel clássico de “um bom par de seios”, não cheira nem fede na história, mas fica a impressão que é uma bela garota. Lorde Alexander por sua vez, é um clérigo um tanto quando saidinho, mas que não tem peso nenhum na história. Soma-se isso, a inimigos inexpressivos, burguesia afundada em prazeres mundanos, e aias que morrem de medo de insetos, e você tem um elenco no mínimo insípido.
O roteiro também não é digno de nota, a suposta investigação simplesmente não existe, nenhuma prova, nem nada é achada ou investigada, tudo não passa de uma sucessão de diálogos e perguntas, que vai passando de pessoa no melhor estilo: “Você roubou o pão na casa do João? Não! Então quem foi? Foi o fulano!”, e assim segue numa facilidade, que deixaria Sherlock Holmes perplexo! Os obstáculos que Sandman encontra pelo caminho também são chatos e inexpressivos, e ele consegue invadir casas, clubes, numa facilidade tão impressionante, que tira todo o clima de perigo que pudesse existir na história. Para fechar a história, o final vem com um clímax excessivo de corrida contra o tempo, que não pareceu existir ao longo do livro, uma dose de ação de ultima hora, e personagens “famosos” que aparecem do nada, sem motivo aparente, geram um arremate descrente, e fraco, a altura do enredo.
Realmente um livro muito fraco na minha concepção, porém a narrativa de Cornwell, se mantêm a altura, dos detalhes por ele imortalizados, e o leitor pode ter uma noção bastante fidedigna da cultura, arquitetura e moda de uma Londres do século 19. 
O apanhado geral, é que Cornwell não me agrada, e em respeito ao grande escritor que ele é, não me acanho em afirmar que O Condenado pode ser uma das mais fracas obras, por ele escritas.

Escritor: Bernard Cornwell

domingo, 22 de agosto de 2010

Shadow Of The Colossus (2005)



Raramente se viu jogo tão original e envolvente quanto Shadow Of Colossus. Lançado pela Team Ico – equipe criada pela Sony, para desenvolver jogos diferentes do escalão popular, diversificando os títulos da empresa – em 2005, o jogo vendeu milhares de cópias e se tornou um sucesso.
A jogabilidade consiste basicamente, em controlar o protagonista na caçada a cada um dos 16 Colossos e derrotá-los. Usando a sua espada como bússola, o jogador gira a câmera, de modo que o reflexo do sol incidente na espada, se afunile e mostre o caminho onde se encontra o Colosso. O jogo inicia no templo onde estão localizadas as estatuas dos 16 Colossos, e que são destruídas após a morte de cada Colosso, sempre que você derrota uma das criaturas, você volta automaticamente para o templo, e é a partir de lá, que você deve dar início as caçadas aos outros monstros. Os colossos normalmente se encontram em pontos remotos do cenário – que pode ser TODO explorado – que normalmente só tem um acesso, e vão progressivamente se afastando do ponto inicial, exigindo muita paciência do jogador em certos momentos. O combate é maravilhoso, e consiste em alcançar os pontos fracos dos gigantes, obrigando-o a descobrir uma forma de escalar e se manter preso ao corpo da criatura. Cada um exige uma estratégia diferente, obrigando o jogador a estudar todas as probabilidades, e o todo o cenário em torno do monstro. Grande parte do jogo se consiste em ficar pendurado, e para isso foi criado uma barra que vai se esgotando enquanto você permanecer nessa posição, o que aumenta a dificuldade e torna o jogo mais real. Ainda existem algumas frutas, e lagartos que podem ser ingeridos, para aumentar a barra de vida e de resistência.
O jogo é realmente maravilhoso, e é uma das raríssimas obras de artes supremas, que aparece de tempos em tempos no mundo dos games. O cenário é magnífico, belo e realista. O gráfico é estupendo, o brilho do cenário, e a maneira como a luz do sol incide sobre as montanhas, e gera suas sombras é digna de nota. O cenário e todo composto de montanhas, vales, sendas, morros, florestas e cavernas, e tudo, absolutamente tudo é explorável – muitas vezes aquele riacho longínquo, no fundo de um penhasco, que você acha ser mero enfeite do cenário, é onde se encontra seu objetivo. A física do jogo, cria uma sensação de imensidade aos cenários, que só é rivalizada em relação aos próprios Colossos. Jogar Shadow Of The Colossus, é a sensação mais próxima, que você pode ter de explorar a Terra Média – sem os monstros claro, em vista que os Colossos e alguns lagartos, são as únicas almas vivas no jogo.
A física do jogo, extremamente cobrada de Ueda e Kaido, aos seus produtores, vale o esforço. Tudo parece perfeitamente real – ignorando o fato que o personagem é um tanto desengonçado – desde a exploração dos cenários, ao uso contínuo de sua égua, que é indispensável, pois faz você sentir a importância que uma montaria tem em longas jornadas. A movimentação da montaria de Wander, é maravilhosamente realista, e até as paradas bruscas do animal, são bem elaboradas. Os imensos cenários, e uma sensação de slow motion na jogabilidade, criam toda a atmosfera épica de Shadow Of The Colossus.
A indústria dos games, desde a era dos 16 bits, adora chefes gigantescos: desde Contra 3, passando por sucessivos Final Fantasys, e Castlevanias, chegando aos extremos como Devil May Cry e God Of War, chefes imensos são obliterados, principalmente com o uso de combos animais e finalizações alá Mortal Kombat, mas é com Shadow Of  The Colossus, que os games chegam ao ápice. Você não conta com nenhum tipo de combo, nenhuma animação destrutiva, nenhum especial nem nada, tudo o que você faz para destruir o Colosso, é feito manualmente, não se surpreenda, ao ter que escalar todo um monstro, a partir dos seus pés, e cair depois de chegar perto de seu objetivo. A sensação de se enfrentar um gigante, é muito realista, e a maioria dos monstros, o trata como um mero inseto.
Os Colossos – o grande clímax do jogo – são maravilhosamente bem construídos. Criaturas gigantescas, compostas de pedras, grama, e outros itens do cenário, fazem jus ao seu tamanho com relação a locomoção. Lentos, pesados – alguns são exceção – faz o jogador sentir na pele como enfrentar um gigante, e não se assuste se você ver um golpe que está a centenas de metros, cair sobre você em questão de segundos. A forma com que cada Colosso reage a seus golpes também é bem explorada. O jato de sangue que sai de cada golpe efetivo, é combinado com uma contração de todo o corpo da criatura, seguido de uma tentativa desesperada de retirar você de seu local – se for desferir um golpe, espere para a sua barra de resistência estar cheia, pois esse será o momento que você mais vai precisar dela.
Para rechear toda essa grandiosidade, não poderia faltar uma bela trilha sonora, e nisso Shadow Of The Colossus, acerta novamente. A maior parte do jogo em si, é silenciosa, e os únicos sons são os causados por Wander e Agro, a música só entra nas batalhas. A sensação que cinematográfica, é realçada pela programação, que altera a música, de acordo com seu progresso na batalha – muitas vezes, a música só chega ao seu clímax depois que você está em cima dos Colossos, desferindo seus golpes mortais. Chegou a ser lançado no Japão, Roar Of The Earth, o CD com todas as músicas presentes no jogo.
Jogabilidade, física, trilha sonora, e ação, tudo contribui para o conjunto da obra, fazendo de Shadow Of Colossus um dos melhores títulos já lançados para os vídeo games, tendo como fator essencial a originalidade, pois pode ter certeza de que você nunca jogou e nem vai jogar – pelo menos por enquanto – algo como isso. Perfeito!!!



Criador: Fumito Ueda, Kanji Kaido
Empresa: Team Ico
Estilo: Ação Aventura











segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Celular (Cell, 2007)


O mestre do terror Stephen King, depois de ter usado lobisomens, vampiros, fantasmas, carros (?), poderes sobrenaturais, e tudo mais em suas histórias, resolve atacar com um tema muito popular, mas que não tinha passado por suas mãos ainda: Zumbis. O resultado disso, acabou sendo uma trama um tanto quanto esquisita, cheia de altos e baixos, derrubando um pouco a expectativa criada em cima do tema.
Eu procurei esse livro para ler, achando que se tratava única e exclusivamente de uma história de zumbis, no melhor estilo George Romero – que recebe até uma dedicatória no início do livro. King, dá aos seus zumbis um toque especial, fugindo do estereótipo clássico, criando uma coisa bem sua: pra começar os zumbis não estão mortos, são pessoas comuns e VIVAS, que após receberem um pulso através dos aparelhos celulares, começam a se comportam como lunáticas, e atacar ferozmente quem encontrar pela frente. Aí está um dos pontos altos do livro, os primeiros capítulos que abordam essa transformação, detalham minuciosamente como seria um acontecimento assim, num caos digno de Romero: Tudo está normal e de repente, um homem morde seu próprio cão... E começa a baderna, pessoas atacando umas as outras com mordidas, e o que estiverem às mãos, num comportamento no mínimo bestial. Batidas seqüenciais de carros, quedas de aviões, e explosões ininterruptas, faz você se sentir na pele, de um cidadão numa cidade entrando em colapso, todos passam a ser uma ameaça, além dos constantes acidentes, qualquer cidadão pode avançar para você com um cutelo e te retalhar. Tudo segue num clima perfeitamente apocalíptico, e você sente na pele a procura de refúgio desesperada dos personagens – e em momento algum King, para de narrar as explosões, que dão um toque de realismo na narrativa. Depois de um começo arrasador, ao história dá uma decaída: os “zumbis” passam a evoluir com o tempo, e se tornam telepatas e telecinéticos, e dessa forma poderosos demais para serem combatidos, e passam a querer vivos os personagens, para uma vingança pessoal. Com isso, mais da metade do livro, passa a ser uma jornada monótona, onde nossos personagens serão protegidos de quem se meter com eles – o que não ajuda muito – pelas próprias criaturas, perdendo todo o clímax de “sobrevivência”. Depois de uma queda brusca de interesse, o livro começa a ficar mais interessante para o final, e o desfecho é de “lavar a alma”, edificante, explosivo, muito bom. E depois cai novamente de rendimento...
Bem, é essa  a impressão que eu fiquei, King criou uma história interessante, mas em detrimento das criaturas chatas – zumbis telecinéticos?ahh – e o fraco desenvolvimento dos personagens – a personagem mais legal... – acabou fazendo de Celular, um livro comum, longe de ser um clássico. Quer ler? Pois leia, num é de todo chato, mas pelo que eu esperava, não me agradou muito! Pelos bons altos, e muitos baixos, fica num meio termo, sem feder nem cheirar!

Escritor: Stephen King

Homem Esfrangalhado

sábado, 14 de agosto de 2010

Carrie, A Estranha (Carrie, 1974)


Carrie, A Estranha. Quem aqui nunca se sentiu no lugar de Carrie? Quem nunca foi alvo de gozações, ou de hostilidade, seja na escola ou na vida mesmo, mesmo que você seja a pessoa mais popular do mundo, de Carrie todo mundo tem um pouco. Você só num tem a capacidade de destruir o mundo com o poder da mente...
Stephen King é um dos maiores – senão o maior – nomes do terror na literatura mundial. Com mais de 50 obras publicadas, Stephen King é um dos favoritos dos leitores fãs do gênero, e também por hollywood, pois muitos dos seus livros viraram filme. E lógico que tudo isso teve um começo: Carrie, A Estranha, é o primeiro livro do escritor, mas mesmo depois de tantos anos, e muita experiência adquirida, Carrie ainda se mantêm como uma das obras mais fortes, e mais maduras do escritor.
Estudante da Barker Street Grammar School, Carrie era uma menina solitária, alvo de gozações e agressões, considerada o patinho feio da escola. Além da vida infeliz que sofria no mundo escolar, Carrie era filha de Margareth White, uma fanática religiosa da pior raça, que constantemente reservava a filha, os mais variados tipos de castigos e punições, para pagar os pecados que só ela via. Humilhada no lar, e no âmbito escolar, Carrie cresce taxada de pecadora – pelo simples fato de ser mulher - pela mãe, e como objeto de desprezo dos seus colegas, acumulando todo o ódio de uma vida. Soma-se tudo isso ao fato de que Carrie era telecinética, e com o poder de mover  objetos com o uso da mente. Numa tentativa de redenção, Sue Snell, convence seu namorado a levar Carrie para o baile de formatura, na esperança de trazer um pouco de paz para a vida da garota, mas uma última brincadeira de mal gosto por parte de Chris Hergensen, acaba levando Carrie ao seu ponto de ruptura, exaltando todo o seu ódio em forma de destruição...
A obra é realmente primorosa, e prende o leitor até o fim. A narrativa de King é extremamente realista, e mesmo se tratando de um tema sobrenatural, é impossível não se comparar com os personagens – extremamente realistas – da história, quem nunca se sentiu acuado, e oprimido como Carrie White, e quantas Chris Hargensen não existem por aí? E quem não se sente ao mesmo tempo complacente e egoísta como Sue Snell? Isso sem falar no fanatismo diabólico de Margareth White. É com personagens auto- identificáveis, e um mundo fluente e ao mesmo tempo odioso, que King conduz o leitor até o desfecho trágico de sua obra. O livro é escrito em dois tempos: são intercalados, o relatório que tenta explicar o massacre ocorrido em Chamberlein, e os flashback’s do passado, que coloca o leitor na pele de Carrie.
 O desfecho da excelente trama, é forte e trágico, e King consegue passar para o leitor todo o clima antes e depois da noite fatídica, prendendo o leitor de tal forma, que mesmo após o término da leitura, o enredo permanece grudado na sua mente, lamentando o triste destino das personagens. Obra Prima!





Escritor: Stephen King

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Os Perdedores: A Hora do Troco

Ação, esse tem sido um dos temas mais abordados pela Vertigo nos últimos anos. Depois do sucesso arrebatador de 100 Balas, vários títulos de ação passaram a ser explorados, obras como Escalpo, Loveless, e o próprio 100 Balas, abordam histórias complexas e cativantes, porém deixa de lado o teor sobrenatural dos roteiros e aposta em armamentos. Tem sido assim os seus últimos sucessos, e nessa maré rica em títulos, Os Perdedores se destaca de bastante agradável.
Os Perdedores, escrita por Andy Diggle e desenhada por Jock, é uma excelente obra de ação inteligente, onde se destacam além dos tiroteios, o roteiro intrigante e cheio de reviravoltas. Os Perdedores, é uma obra cinematográfica, e lê-la é um prazer comparado a assistir um bom filme de ação, tudo está lá: uma introdução com bastante apelo visual – um grupo de soldados assaltando um helicóptero, dá início a história – seguida da apresentação dos personagens, passando por excelentes cenas, reviravoltas e um desfecho que deixa gancho para uma possível continuação, exatamente como um ótimo roteiro ilustrado.
Um helicóptero com agentes da CIA explode numa missão, e os tripulantes são dados como mortos... mas sobrevivem. À espreita, acabam descobrindo que tudo não passou de uma armação da própria CIA, e agora eles vão com tudo para cima, eles não ter nada a perder, pois são Os Perdedores. Uma equipe de super agentes, que vão atrás de quem os traiu, e acabam descobrindo muitos podres, em meio a corrupção e espionagem.
Ao contrário do que pode parecer, não se trata de uma história clichê, o enredo é altamente competente, com bastante desenvoltura, Andy Diggle mostra uma equipe de agentes, planejando um grande golpe contra a CIA. Como cada um desempenha uma função específica, se prepare para cenas de assalto, recheadas de ação sem limites, fugas mirabolantes, e desfechos improváveis. Ressaltando que assim como assistir um bom filme, Os Perdedores te deixa sem fôlego da primeira a última página, motivo esse que conquistou Hollywood. As ilustrações de Jock são extraordinárias, e contribuem para o tom cinematográfico da obra, ângulos panorâmicos, cenas violentas, servem para dar vida ao excelente roteiro de Diggle. Altamente recomendada!
Só para complementar: Indo na contramão o filme Os Perdedores é uma adaptação capenga, tirando toda a excelência da série, e se tornando um filme clichê. Efeitos mal produzidos, cenas novas desnecessárias, sem falar num humor exagerado que foge completamente do âmbito da HQ. Se em quadrinhos Os Perdedores é uma experiência interessante e inovadora, nos cinemas num passa de mais um filme de ação, que nem deve estrear perto de você!
      

Roteirista: Andy Diggle
Arte: Jock



quinta-feira, 12 de agosto de 2010

John Constantine - Hellblazer: Congelado

Hellblazer, junto com as outras obras do amaldiçoado – no Brasil – Vertigo, se encontram finalmente em mãos de uma distribuidora de renome, e vai ganhando seu espaço nas bancas. Com histórias publicadas mensalmente na revista Vertigo, chega agora ao seu primeiro encadernado pelas mãos da Panini – que opta por encadernados mais viáveis em papel LWC, e capa cartão – que está publicando a partir de onde tinha parado as outras editoras. O encadernado traz as edições 157 / 163, escritas por Brian Azzarello.
Azzarello, é um dos mais renomados quadrinistas da atualidade. Depois de ter alcançado a fama com 100 Balas – um dos mais aclamados títulos policiais lançados pela Vertigo – acabou se tornando o primeiro americano a escrever Hellblazer, e deu uma nova face para a história do anti-herói, ao trazê-lo em uma viagem pelo “Lado Negro” dos EUA.
Congelado é o arco de histórias principal do encadernado, nele Constantine se encontra num bar, perdido no meio de uma nevasca. Com ele, nesse mesmo bar, se encontram além dos donos, uma família, e um bando de assaltantes, e para deixar a situação mais dramática, um suposto serial killer ronda a região. A história, ilustrada pelo excelente Marcelo Frusin, mostra como o roteiro de Azzarello é competente se tratando de enredos policiais. Constantine como sempre se mostra despreocupado e irresponsável o bastante para foder com quem se coloca em seu caminho, recorrendo aos seus poderes. O cenário ficou muito bom, e remete aos pub’s de cidades montanhesas, a nevasca constante conflita com o ambiente aconchegante, porém tenso de dentro da instalação. O enredo, consegue manter o clima de mistério que paira sob o frio.
A edição ainda conta com a rápida Morto e Enterrado, que só mostra um diálogo de Constantine e seus “fantasmas do passado”, mas é muito rápido, e passa batido. A história final sim, é bastante divertida e criativa. Almofadinhas e Ingleses, mostra John Constatine, no auge da sua adolescência, com visual punk e tudo que tem direito. Ainda longe de ser um mago, e de presenciar tudo o que o destino lhe reserva, Constantine já se envolvia com o sobrenatural, mas de uma forma menos “profunda”. Na trama, ele é contratado para roubar um “artefato mágico”, contar mais seria estragar a surpresa, pois o desfecho é realmente divertido.
      

Roteirista: Brian Azzarello
Arte: Steve Dillon, Marcelo Frusin, Guy Davis




John Constantine - Hellblazer: Sangue Real

Hellblazer, uma das mais aclamadas HQ’s norte americanas, e protagonizada por um dos mais emblemáticos personagens da indústria dos quadrinhos: John Constantine, nunca teve uma publicação descente no Brasil. Quebra de editoras, e má distribuição do material, fazem de Hellblazer uma série muito pouco aproveitada em terras tupiniquins, com pouco material traduzido, e cronologia caótica. Aos poucos, alguns encadernados vão sendo lançados, com objetivo de compilar todo esse material espalhado. John Constantine – Hellblazer: Sangue Real, foi publicado pela Pixel – mais uma extinta distribuidora do maldito Vertigo – compila seis edições de Hellblazer, são duas histórias inéditas escritas pelo lendário Garth Ennis.
O polêmico Garth Ennis, a mente doentia por trás de Preacher, é aclamado por muitos como o maior roteirista de Hellblazer, sendo ele que moldou a obra, e a transformou em algo infernal, onde profanação e canalhice, fixaram de vez a personalidade de Constantine. Ennis traz duas histórias, repletas com toda a sordidez que só ele tem a oferecer.
Em Sangue Real, o mago vai ter que lhe dar com um grupo de pessoas ricas, influentes e sádicas, que acabam se envolvendo com Calibraxis, o demônio por trás de Jack O Estripador. Constantine é chamado para dar um jeito na criatura, mas acaba descobrindo que um dos seus contratantes tem muito mais haver com essa história, do que se parece. Quem conhece, sabe de cara que se trata de Ennis escrevendo, sangue, eviscerações para todo lado, e muito sadismo em cena, são marcas registradas do escritor. O roteiro segue muito bom, com um ar de romance policiai – absolutamente nada romântico – e com um desfecho completamente sanguinário, típico de Constantine.
Em Argila Mortal e Corpo e Alma, Constantine, investiga o desaparecimento de corpo, e acaba descobrindo que a profanação de túmulos, tem um objetivo um tanto quanto excêntrico. Nessa história, com excelente condução de Ennis, podemos prestigiar os poderes necromânticos de Constantine.
      

Roteirista: Garth Ennis
Arte: Steve Dillon, William Simpson


segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Livros sem papel?

Antigamente quando você queria escutar uma música, você pegava o seu vinil, colocava no toca discos, ajeitava a agulha, e ouvia um som gostoso e nostálgico com um velho ruído característico, causado pelo atrito da agulha com o vinil. Ou então através das fitas cassete. Mas a boa e velha tecnologia, como sempre avançado inexoravelmente, trouxe-nos o disco laser, popularmente conhecido como CD. Espaço nos foi poupado pelo seu tamanho diminuto – em relação aos vinis – a qualidade de som era “melhor”, ruídos não existiam mais, e a capacidade de ser gravado com facilidade, acabou extinguindo também as velhas fitas cassete. A tecnologia por sua vez, não diminui seus passos pesados e velozes, em busca do avanço, e com a popularização da internet e de novos softwares, os CD’s também estão com seus dias contados. Hoje são os mp3’s e os I’pod’s que dominam o mercado, e as vastas coleções de CD’s foram substituídas pelo HD dos  computadores. O avanço tecnológico de fato moldou violentamente o mundo da música, e esse mesmo avanço, pode também alterar o universo de outra mídia muito popular: os livros.
Desde o início da humanidade o homem anseia em se comunicar, e para isso desenvolveu além da fala, a capacidade de comunicação através de sinais ou desenhos – como as pinturas monolíticas – e consequentemente a escrita. Os livros são unidades de informação seculares, herdados de muitas gerações de antepassados. Hoje em dia, livros são um companheiro comum no dia a dia das pessoas, seja nas escolas, ou seja na cabeceira da cama, sejam leituras educacionais – como livros didáticos, e dicionários – seja literatura, seja livros sobre a história da humanidade, seja livros sobre a histórias de terras fantásticas. O fato é que o livro sempre esteve presente, e atualmente mais do que nunca, ele se encontra no cotidiano do homem. Os livros sempre manteram uma fórmula: capa, e as folhas encadernadas. E agora, será que vai passar realmente para os HD’s da vida, assim como a música?
Com a torrente permanente de eletrônicos jorrados no mercado semanalmente, é bem verdade que os livros como conhecemos correm sério risco de mudar, hoje praticamente qualquer celular tem a capacidade, de armazenar textos, e ainda são criados muitos aparelhos com essa finalidade, dessa forma é difícil não acreditar numa mudança drástica da indústria literária. Os livros eletrônicos tem algumas vantagens, como: armazenamento – assim como aconteceu com os CD’s, o espaço para armazenamento dos livros fica praticamente extinto – transporte – é mais fácil carregar um pequeno eletrônico, do que alguns livros – e acima de tudo, o custo produtivo – um livro digital gastaria menos de 20% uma produção normal de um livro, e a celulose se tornaria obsoleta nesse aspecto. Sim, analisando por esse ponto de vista os livros digitais seriam uma ótima pedida, mas pelo ponto de vista do livro tradicional, vê-se que a coisa não é bem assim.
Quando você entra numa livraria, uma das coisas que mais chama atenção, é justamente o visual dos livros: Uma boa capa, peso, volume, isso tudo contribui para a o leitor criar uma afinidade com o livro. Observar todos os detalhes da capa, o título, ler a sinopse na contracapa, e na traseira do livro, e posteriormente folhear um livro, absorvendo tudo o que a história tem para oferecer, tudo isso faz parte da arte ritualística que é a leitura, e tudo isso simplesmente desaparece com os livros virtuais, através deles, ler deixaria de ser um ritual prazeroso, e se tornaria num simples ato de ler palavras continuamente. Outro fator importante, é a claridade do visor, os led’s presentes nos monitores dos digitais, se tornam irritantes com o tempo, cansando a vista, dificilmente você conseguiria ler um digital com a mesma eficiência do que um livro, principalmente para quem tem problemas de vista. Outro fator muito importante a ser observado, é que com um livro digital, você passa a ficar dependente de baterias, e consequentemente de energia elétrica, enquanto um livro tradicional, pode estar sempre ao seu lado, em qualquer lugar do mundo, independente dos seus recursos – ao contrário da musica, que sempre depende de energia.
De uma forma geral é difícil acreditar numa “não transformação” do universo literário, mas se compararmos com a música temos que analisar o fato de que: as mudanças para o mundo da música, vieram bem a calhar, enquanto para o mundo dos livros, é mais uma transformação radical do que de fato uma melhoria. Eu sinceramente espero, e acredito que o bom e velho livro tradicional, não está com os dias contados – pelo contrário, nos últimos anos, o consumo do livro de papel aumentou, mesmo com o crescimento das mídias eletrônicas – e falta ver como os consumidores vão reagir à essa transformação, afinal de contas, o ato de folhear, usar marcadores personalizados, escrever dedicatórias, e trocar ou emprestar livros, é algo impresso na alma dos leitores, e um Kindle não ficaria bonito exposto na sua prateleira!


sábado, 7 de agosto de 2010

Resident Evil 2(1998)

Qual não foi minha sensação ao jogar esse jogo pela primeira vez, me lembro até hoje: era um quarto escuro, e eu nunca tinha entrado em contato com jogos de terror. O clima noturno do jogo, os monstros – sim era a primeira vez que eu topava com um tema assim – o cenário. Tudo isso contribuiu para fazer de Resident Evil 2 uma experiência inesquecível.
O enredo conta a história de Leon S. Kennedy, um policial que logo no seu primeiro dia de trabalho no Departamento de Policia de Raccon City, se encontra numa cidade devastada e infestada por zumbis. Leon começa sua jornada por sobrevivência, onde “escondido” dentro da delegacia, ele começa a investigar e descobrir tudo o que pode ter acontecido na cidade. Por outro lado Claire Redfield, vem até a cidade procurar seu irmão Chris Redfield – protagonista de Resident Evil 1 – mas encontra um caos apocalíptico, em sua jornada ela encontra Sherry, e fará de tudo para proteger a garota. Leon e Claire se encontram e unirão forças numa tentativa de fugir da cidade.
Resident Evil 2 é um clássico do Survival Horror, e é o segundo episódio de uma das franquias mais rentáveis da história. A ambientação é simplesmente maravilhosa: Os cenários são perfeitos, coisas destruídas, lixo espalhado, e sangue... Você realmente se sente abandonado num apocalipse Z, os zumbis são lentos e lerdos, mas a escassa munição os transforma em adversários formidáveis, o som e a trilha sonora do jogo, contribui para a tensão, fazendo você cravar os dedos com muita atenção ao controle. O roteiro do jogo é maravilhoso, e tem moldes de um excelente filme. Você se sente dentro da história.
Não só de zumbis vive o jogo, outros monstros aparecem ao longo da franquia. Insetos gigantes, e outras bizarrices são comuns de se encontrar, mas o grande destaque para Resident Evil 2 vai para o Licker: Um humanóide monstruoso, que anda sobre as 4 patas, e pode andar nas paredes, portador de uma grande velocidade, com uma boa arma e munição ele não é problema, mas mesmo assim é um dos monstros mais perigosos, e mais famosos da série.
Resident Evil 2 não é só mais um jogo na extensa lista de jogos da franquia, mas é um dos principais nomes, onde a série Resident Evil cravou seus alicerces.


Criador: Shinji Mikami
Empresa: Capcom

Estilo: Ação, Survival Horror

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

O Mundo Perdido (The Lost World, 1996)

Mais um livro sobre dinossauros do excelente Michael Crichton. O livro só comete um erro capital: usar exatamente a MESMA fórmula de Parque dos Dinossauros, não diferindo em praticamente nada do primeiro livro: Começa com alguns cientistas estudando espécimes encontrados que podem ser de possíveis dinossauros, aí vão para uma ilha onde toda a biosfera do Cretáceo está viva, os vilões aparecem atrás de espécimes para clonar; um ataque de T-Rex contra algum veículo tripulado, teorias matemáticas - bem legais diga-se de passagem de Ian Malcolm - ataque de raptores na reta final do livro, e uma fuga as pressas da ilha.
Tudo que o leitor já presenciou no primeiro livro, vai repetir aqui, tornando a leitura desse chata e tediante. Não é de todo ruim, mas não me agradou! 

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Batman Begins (Batman Begins, 2005)

Batman, originalmente desenvolvido por Bob Kane e Bill Finger foi um personagem criado, para pegar carona nas ondas do sucesso que Super-homem galgava na época, e conseguiu. Batman ao lado do Super-Homem e Homem Aranha, é um dos três maiores heróis da indústria de quadrinhos. Baseado em personagens como “Drácula”, Batman vestia um uniforme negro e tinha como símbolo o morcego, mas só descobriu o lado sombrio de seu ser, depois que Frank Miller assumiu os roteiros e lançou o marco O Cavaleiro Das Trevas. A HQ, moldou uma nova personalidade para o personagem, sombria, um verdadeiro anti-herói, e é com essa mesma pegada que Christopher Nolan dirige o excelente Batman Begins.
Bruce Wayne (Christian Bale) é um jovem milionário, herdeiro das indústrias Wayne. Depois de ter presenciado o assassinato dos pais ainda muito jovem, Wayne se tornou um playboy mesquinho e problemático. Com Gotham City mergulhada na sujeira e na podridão, Wayne se sentia deslocado, e descobriu do jeito difícil que a justiça não tinha poder nenhum sobre os mafiosos da região. Tentando encontrar seu lugar no mundo, Wayne dado como morto, viaja o mundo em busca de auto-realização. Essas viagens o leva até os confins da Terra, aonde ele é aceito em uma guilda de assassinos, onde aprende tudo sobre artes marciais, e como usar a maior arma de todas: o medo. Depois de discordar com as ideologias de seu “mestre” Ra’s Al Ghul, ele se rebela e volta para Gotham City, onde sobre alter-ego de Batman, vai finalmente combater o crime...mas a seu modo.
Batman Begins é um assunto a parte em matéria de filmes de super heróis, pois o nível com que é apresentado ao público vai muito além das HQ’s. Christopher Nolan, detalha meticulosamente com muito realismo toda a transfomação do insípido Bruce Wayne, no homem morcego. O cinto de utilidades foi substituído por um verdadeiro uniforme High – Tech, onde as pistolas de corda, foram substituídas por um kit realista de rapel e montanhismo – fugindo dos clichês das HQ’s. Sonares para atrair morcegos, e óculos de visão especiais, fazem parte do arsenal do “herói”. Mas todo esse realismo não tirou a imagem de Batman, pelo contrário, realçou ainda mais a personalidade indigesta de quem não faz questão de ser simpático. As aparições e “desaparições” de Batman ao longo do filme, são colocadas de tal forma a supor que sua existência seja algo mitológico, e o modo como o homem morcego, usa o medo das suas vítimas contra elas próprias, é fantástico.
Christian Bale, um dos nomes do momento de Hollywood, executa com maestria o papel do irresponsável playboy Bruce Wayne, e sua antítese Batman, sério, reservado que parece levar o peso do mundo nas costas. Katie Holmes e Cillian Murphy, trabalham com eficiência em seus papéis como a mocinha do filme Raquel Dawes e o vilão Espantalho – que na visão atual de Nolan, ficou bastante interessante. Personagens míticos do mundo de Batman, o mordomo Alfred (Michael Caine) e Jim Gordon (Gary Oldman) são maravilhosamente bem interpretados, o elenco ainda conta com Morgan Freeman, que age como um conselheiro do homem morcego.
Os efeitos especiais, são condizentes com o tamanho e importância do filme, e fica o destaque para a cena de perseguição ao batmóvel – aqui um tanque especial modificado.
 A visão de Nolan é fantástica, e somando isso ao clima noturno e quase cyberpunk de Gotham, mais a atuação eximia dos atores, transforma um filme num clássico, o filme mais maduro já feito sobre um super-herói, senão o melhor!





Direção: Christopher Nolan
Roteiro: Christopher Nolan, David S. Goyer,
Duração: 134min
Distribuidora: Warner Bros, Legendary Pictures

domingo, 1 de agosto de 2010

Esfera (Sphere, 1988)


Michael Crichton é a mente por trás do excelente Parque dos Dinossauros. Exímio escritor de ficção científica, Crichton é um dos maiores nomes no chamado Techno Triller, estilo de narrativa onde há enorme detalhe técnica das tecnologias envolvidas. Muitos livros de Crichton viraram filme, e Esfera não foi diferente.
Um grupo de cientistas, encontram uma nave perdida no fundo do mar, e descobrem que seu naufrágio data de uma época anterior a corrida espacial. Um grupo de pesquisadores, são enviados para estudar o tal objeto. Lá chegando eles descobrem que a nave é oriunda da terra, mas muito provavelmente veio do futuro. Eles encontram no interior da nave, uma esfera alienígena, mas não sabem o que se encontra dentro, até que conseguem entrar em contato com o seu provável habitante. A entidade alienígena, que parece ter a mentalidade um tanto quanto estranha, passa a aterroriza-los.
Uma idéia bem legal, e com narração eficiente, faz de Esfera um ótimo livro. Os detalhes que Crichton usa para contar a história, como nos momentos em que os pesquisadores explicam a existência dos buracos negros é muito interessante. O ponto alto do livro, é o suspense criado: criaturas inexistentes começam a aparecer, e a atacar os sobreviventes, a atmosfera de terror é ampliada pela falta de contato com a superfície. Até aí tudo é muito bom, até o desfecho do livro... As explicações para os acontecimentos bizarros, são um tanto quanto chatas, e tiram toda a magia criada no início da história, e o desfecho final simplesmente tranca a narrativa como se não tivesse acontecido nada, transformando-a em algo obsoleto.
Mas de uma forma geral, é muito bom livro, e se você é fã de Crichton ou de ficção científica, vale a pena dar uma conferida.
Escritor: Michael Crichton

Acerto de Contas

A chuva acabava de castigar o leste da cidade e agora se encaminhava para o norte, deixando para trás um ar de destruição e abandono, em meio a esta paisagem pseudo-apocalíptica que uma moto se deslocava a toda velocidade. A avenida era larga e permitia que o solitário motoqueiro sem capacete costurasse os carros sem nenhuma dificuldade.
O subúrbio, um local evitado pela grande maioria dos cidadãos - pelo menos os considerados normais - um grande conglomerado de becos e vielas onde todo tipo de atividade ilegal era praticada: assaltos, roubos, estupros, assassinatos, seqüestros, e todo e qualquer tipo de tráfico. É para lá que o solitário motoqueiro se direciona.
O motoqueiro sai da avenida principal sem qualquer precaução, arrancando palavrões e buzinadas dos demais motoristas, e por meio de um desvio logo chega na fronteira do subúrbio. Como bom conhecedor do local, ele se desloca entre os becos quase sem diminuir a velocidade. Em seu trajeto ele passa por várias vielas alagadas e enxurradas, sinais que a chuva ali foi violenta. Concentrado ele nem ouve um casal de punk’s xingar pois no meio da relação sexual ao ar livre, foram encharcados pelo motoqueiro que passou a toda por uma poça d’água. Dois quarteirões a frente, ele para e desce da moto, estacionando-a na frente de um prédio.
Ele da à volta pelos fundos - se bem que no subúrbio todo lado pode ser considerado o fundo - e para na lateral do prédio olhando para as janelas. Uma olhada mais objetiva revela a janela que realmente importa, a luz acesa faz com que um leve sorriso apareça sorrateiramente em sua face. Olhando atentamente uma poça d’água ele vê refletido nela seu reflexo: os cabelos longos caem desembrenhados pelos ombros, escondendo a gola da camiseta e do sobretudo ambos pretos, em seu rosto uma palidez sobrenatural é contrastada pelas marcas escuras em volta dos olhos. Ele fita seus olhos inexpressíveis atentamente, mas estes refletidos na lâmina da faca que ele segura em mãos.
Carl Jhonson xinga após se cortar com o barbeador. Com o auxílio do espelho ele limpa o sangue e se afasta para dar uma olhada melhor no corpo nu: o peito largo e peludo não é nada se comparado a imensa barriga cheia de banha, o cabelo cortado rente dá maior ênfase ao início de calvície nas têmporas, deixando a mostra um rosto grande típico de um canastrão sádico. Uma apalpada na genitália precede uma gargalhada típica de um chefão da máfia com um ego maior do que sua barriga obesa – um simulacro caricato da lua.
- Jennifer, ô Jennifer? Cadê você sua piranha descabaçada? – Carl grita chamando a prostituta que ele alugou para esta noite.
Sem resposta.
- Cadê você piranha dos infern... – ele para subitamente na porta da sala com um olhar de espanto, e o coração lhe saltando a boca.
Na sala em frente à janela entreaberta, está parada uma figura nada amistosa, vestida de um sobretudo negro, coturnos e cabelos longos remexidos pelo vento.
- Nnnaaão vovovocê não! – Carl gagueja e cai no chão largando a toalha e correndo pelado em direção ao quarto.
Ele entra desesperado no quarto à procura de sua pistola nas gavetas.
- Procure na gaveta de baixo – diz o estranho que já esta dentro do quarto, do outro lado da cama.
- Como chegou aqui? Você estava na sala! – Carl cai mais uma vez sentado, mas desta vez empunhando sua Magnun – Toma isso seu merdinha.
Carl dispara, o silenciador da arma impede que alguém ouça, mas antes que o projétil atinja o alvo, o estranho dá um salto se desviando da bala e parte em direção a Carl, que rastejando para trás faz mais três disparos. O estranho numa mistura de saltos, e manobras se desvia de todos os disparos e crava sua adaga em Carl, entre o pescoço e a clavícula, gerando um ruído seco, fazendo o mafioso contorcer todos os músculos de dor.
- Se eu retirar a adaga você vai sangrar até morrer, e melhor me dizer os nomes, rápido! – o estranho fala com uma calma serena passando a mão pela cabeça de Carl num gesto de “carinho”.
Carl com os olhos revirados, responde num sussurro doloroso.
- Henry e Marco Cruciollo. Por favor não me mate, eu nunca mais...
A frase é interrompida pela rápida remoção da adaga, fazendo um jato de sangue esguichar na parede, uma outra estocada e Carl cai no chão já sem voz.
- Como se sente estando no lugar da vítima? – o estanho sussurra no ouvido de Carl, antes de dar mais uma estocada.
Jennifer caminha em direção ao quarto de seu cliente. Ela deixa a calcinha no meio do caminho e caminha nua pela casa, pois sabe que Carl não liga para preliminares. Ela esta pronta para a noitada, não que esteja afim, mas o dinheiro de Carl lhe dá o tesão necessário para o serviço ser bem feito. Ela prepara o andar sensual que todo homem adora e entra no corredor rebolando levemente, mas para abruptamente com a cena que vê: Um homem de preto de sobretudo caminha em sua direção carregando na mão uma adaga ensangüentada. Atrás dele o corpo de Carl jaz todo perfurado no chão. Ela se encosta na parede e o assassino para de frente a ela.
- Por favor – o coração parece bater mais alto que os coturnos do assassino no assoalho de madeira - Não me mate... – a frase é interrompida por um leve beijo que ele dá nos lábios dela.
O assassino limpa a adaga no interior das coxas da prostituta e sai fechando a janela normalmente. Depois de descer as escadas externas ele pega a moto e sai tranquilamente pela noite, em sua mente nada de remorso ou flash’s, em sua mente apenas dois nomes que ele conhece muito bem: “Henry Cruciollo e Marco Cruciollo”.
Jennifer ainda sentada no corredor, se recupera do susto. Limpa as coxas com nojo e prepara suas roupas para sair dali rapidamente. Se a polícia pegar ela lá, ela sabe o que vai acontecer: uma noite sendo espancada na cadeia para confessar algo que não fez, pois para a polícia é mais fácil condenar alguém que está ao seu alcance do que procurar um assassino sem nome pela noite. Antes que consiga pegar sua jaqueta as sirenes tocam na rua lá em baixo. Ela olha para a janela e vê a viatura parada do lado do prédio, um policial com um rádio nas mão procura algum vestígio na escada, provavelmente alguém viu o estranho invadir o apartamento pela janela. Ela corre em direção a porta, mas a campainha toca antes que ela chegue na cozinha. Jennifer maldiz sua sorte, relaxa e respira fundo, joga a jaqueta na cadeira ao lado e parte para atender a campainha toda sexy, esta noite ela vai prestar seu serviço de graça, e ela odeia isso.

Piratas do Caribe: No Fim do Mundo (Pirates of the Caribbean: At World's End, 2007)

O primeiro Piratas do Caribe foi um sucesso, com um roteiro interessante, cenas de ação maravilhosas, personagens inesquecíveis e uma excelente trilha sonora, o filme foi um expoente máximo no tema: piratas. A sua seqüência foi ainda melhor, usando efeitos especiais ainda mais inovadores, ele trouxe de volta todo universo criado no primeiro filme, com ainda mais profundidade, apostando num roteiro cheio de reviravoltas e cenas de ação, teria sido perfeito se não fosse um detalhe: ele não tem final, ele termina em aberto deixando para o terceiro filme finalizar a trilogia, esse é o problema, o terceiro filme...
Piratas do Caribe: No Fim do Mundo, simplesmente se perde. Ao invés de manter a formula dos primeiros filmes, ele tenta ser ousar em terreno desconhecido, tentando passar uma aura mais sombria para a série, além de se ver obrigado a fechar a trilogia explicando tudo o que não foi explicado, e aí que aparecem os problemas.
Agora o diretor da Companhia das Índias Orientais, Lord Cutler Beckett (Tom Hollander), depois de ter conquistado o coração de Davy Jones( Bill Nighy), usa o Holandês Voador para o extermínio de piratas. Para combater isso, os piratas resolvem reunir novamente “Os Nove Lordes da Corte da Irmandade”, que basicamente seria a reunião de todos os piratas existentes. Para conseguir isso, eles precisam trazer de volta a vida, um dos membros que havia sucumbido perante o Kraken: Jack Sparrow. Essa missão fica a cargo de Barbossa, Will e Elizabeth, que vão até Cingapura, ter com o Capitão Sao Feng (Yun-Fat CHow), um dos membros da irmandade, a espera da obtenção de mapas secretos, que levariam até o fim do mundo. Paralelos a isso tudo, tem a Deusa Calypso, encarnada em Tia Dalma (Naomie Harris), que pode ser a chave para o desfecho da história.
Ta, a idéia até que é interessante, mas já é confusa por si só, e nessa miríade de detalhes, que o roteiro se perde e se arrasta melancolicamente. O maior trunfo dos dois primeiros filmes, era a comédia e aventura em alta dosagem, mas em No Fim do Mundo, isso não existe, pois ao deixar a trama mais sombria, poucas cenas de comédia são vistas, e somando isso pouca ação, o filme se torna longo e tedioso. Outros fatores não passam despercebidos: Onde foi parar o grande monstro, e sensação do segundo filme? Isso mesmo, o Kraken, não tem participação nenhuma em No Fim do Mundo, se alguém esperava ver ele destruindo ou no mínimo sua destruição, tem que se contentar com a cena em que ele aparece morto jogado numa praia. O ritual de ressurreição de Jack Sparrow que tinha tudo para ser algo inovador, num passa de uma viagem chata e melancólica por águas geladas, o que vai fazer o espectador usar o fast – foward sem pensar duas vezes, culminando num dialogo pseudo-intelectual, entrevários Jack Sparrow’s o que vai deixar o publico no mínimo se perguntando o que seria aquilo. O par romântico da série, Elizabeth e Will, praticamente deixam o romance de lado, perdendo todo o seu peso na história, e acreditem o público não vai gostar do desfecho disso. Norrington, que era um excelente vilão nos dois últimos filmes, entra para a lista de exclusão ao lado do Kraken, e não tem participação efetiva no filme. Davy Jones, o demônio dos mares, passa a ser um cão mandado de Cutler, que em o Baú da Morte, não se impunha em momento continua o mesmo, mas no papel de vilão do filme? E qual o motivo de reunir “Os Nove Lordes da Corte da Irmandade” se eles simplesmente não participaram de nenhuma batalha? E Calypso? O que aconteceu com a chave para o desfecho da história?
Tudo isso contribui para Piratas do Caribe: No Fim do Mundo, ser um fiasco – apesar da excelente bilheteria – mas não por conta de uma história batida, mas por única responsabilidade de seus produtores, não se pode aceitar depois de dois ótimos filmes, trazer um roteiro desses para a tela. Enfim, a sorte é que o rótulo Piratas do Caribe, se mantêm no topo, pelas suas primeiras impressões causadas, e pelo sempre excelente Jack Sparrow.
 O quarto filme está em produção, e agora depois disso leva muita pouca expectativa, ainda mais com a ausência de alguns personagens. Piratas do Caribe entrou para a história, sendo uma trilogia extremamente bem rentável, e com um final desprezível, agora resta a saber se ainda tem forças para sobreviver. Particularmente, eu torço para que sim, desde que não aconteça coisas como essas listadas acima.

Direção Gore Verbinski
Roteiro: Teddy Elliott, Terry Rossio
Duração: 168min
Distribuidora: Walt Disney Pictures