quarta-feira, 14 de julho de 2010

Glacerfang

Faltavam poucas semanas para o final do inverno, mas em nenhum momento durante toda a estação, ele estivera tão rigoroso quanto agora: a nevasca já durava uma semana, com direito a apenas alguns pequenos intervalos de “trégua”. O vento forte que soprava do norte era o mais poderoso que se tinham notícias, e se não fosse pela localização estratégica do vilarejo, erguido em um vale no meio da Cordilheira de Agaeth-Dûr, o vilarejo de Jaberwock já estaria varrido do mapa, se é que um lugar tão pequeno constava nos mapas. O rio que passava dentro da cidade alimentado pelo desgelo das montanhas tinha transbordado com o início da tormenta, e agora jazia congelado para fora de seu leito como se uma enorme serpente de gelo tivesse saído do rio e invadido a cidade.
As casas suportavam como podiam à tempestade e os seus moradores sofriam com o frio intenso e a fome, pois ninguém por mais corajoso ou maluco que fosse, ousava sair para fora em busca de lenha ou comida. Não a mercê da tempestade, não a mercê de Glacerfang...
Num dos intervalos da tempestade e num extremamente raro lampejo de sol, os homens da cidade se encontravam na praça central, para trocar mantimentos e providenciar quaisquer cuidados médicos necessários a população. Nestes intervalos as pessoas corriam desesperadas para trocar notícias entre vizinhos e parentes, mas antes que todos esperassem a nevasca voltava, e era inconcebível que alguém permanecesse nas ruas. Em das casas um avô e seus dois netos estavam sentados ao lado da lareira com o novo carregamento de lenha já queimando.
- Crianças, vão já para as suas camas, é hora de dormir – respondeu uma voz masculina que entrava na sala, trazendo uma enorme jarra lotada com vinho.
As crianças não resmungaram e foram quietas para o quarto. O homem se sentou ao lado do velho e lhe serviu uma taça de vinho, e depois iniciou uma conversa com o ancião, que de confortável não tinha nada.
- Bastardo maldito, filho das bestas mais profanas do inferno – enquanto dizia estas palavras terríveis, seus dentes rangiam de raiva e as lágrimas corriam abertamente pelo seu rosto – Será que algum santo dia nos veremos livres de Glacerfang?
- Não profira tanto rancor, atrai maus espíritos – disse o velho com a voz engasgada por tentar esconder as suas lágrimas.
- Maus espíritos? – disse o homem gritando, esquecendo das crianças no quarto – O único mau espírito que existe aqui e o desgraçado do Glacerfang, e esse parece que não vai sumir nunca.
Ao terminar estas palavras o homem desabou em lágrimas e chorou como uma criança, se lembrando da sua desgraça:
Seu nome era Angliot e naquela época ele namorava uma garota chamada Nephet. Eles viviam felizes e estavam sempre procurando os lugares mais afastados e reclusos para seus encontros, uma vez é claro que o sexo era considerado um ato sagrado que só era permitido após o matrimônio, e antes desse ele era considerado uma prática diabólica, só efetuado pelos demônios, e os guerreiros vis das terras selvagens. Acontece que a companhia um do outro e a curiosidade faziam deles parceiros ativos desde muito tempo. Suas vidas prosseguiram felizes e com o tão esperado casamento eles consumaram um sonho:tiveram dois filhos. A vida seguia calma e tranqüila exceto é claro, no inverno onde Glacerfang atacava e era obrigação de todos os cidadãos ficarem trancados dentro de suas casas. Mas o costume desde a adolescência fazia com que Angliot e Nephet sempre procurassem os velhos lugares inusitados para efetuarem suas fornicações: um celeiro de um casebre abandonado e o bosque nas imediações da cidade, obedecendo apenas o limite que eles sabiam ser território de caça dos lobos. E numa destas andanças aconteceu o evento fatídico: Era inverno, mas a nevasca não tinha parecido naquela semana e o céu estava relativamente calmo naquela tarde. Eles deixaram os filhos com o avô, e partiram em busca de seu lugar secreto. O celeiro no fim da cidade. Quando entraram eles já estavam aos beijos e abraços.
Enquanto Angliot se preocupava em excitar a mulher, a nevasca começou de repente. Eles até pensaram em fugir, mas acharam mais seguro ficarem ali dentro do celeiro do que se arriscar a sair correndo pelas ruas.
Eles estavam quietos e silenciosos quando a nevasca irrompeu violentamente pela cidade e Nephet flutuou a sua frente. Angliot olhou para cima e via a terrível criatura erguendo a mulher pelos dois braços.
- Angliiiii... – foi a última palavra que ele ouviu a mulher dizer, antes de ser despedaçada em dois e devorada por Glacerfang...
Angliot esquecendo que seus filhos estavam tentando dormir, e ignorando o velho ao seu lado deu um grito amaldiçoando o monstro.
- GLACERFANG HOJE VOCÊ SERÁ DESTRUÍDO!!!
O grito soou tão alto que algumas pessoas até ousaram abrir as cortinas para ver por entre a nevasca, mas a visibilidade era praticamente nula.
Angliot num acesso de loucura pegou uma enxada que estava ao lado da porta e saiu para de casa tendo seus brados de desafio ofuscados pelo uivo do vento. A última coisa que os vizinhos ouviram foram o grito de dor e de ossos esmagados sendo levado pelo vento.
- Nãããooo!!! – o velho caiu em prantos no chão da sala – Pelos deuses será, que algum dia nos veremos livres deste demônio - Ele tinha perdido mais uma pessoa que amava.

                          Parte 2
                              
Longe daquele vale infernal, mas ainda aos pés da imponente cordilheira, havia um bosque que percorria muitos e muitos quilômetros ao longo das montanhas e se estendia do vale até o oceano. E era naquele bosque congelado que dois viajantes procuravam um lugar para passar a noite.
- Mestre, o tronco desta árvore está oco, e parece bem aconchegante - disse uma figura de voz jovem toda enrolada em um manto negro – Mas só tem espaço para um de nós.
- Então você dorme primeiro – disse uma voz mais velha - Eu fico com o primeiro turno – e ao terminar suas palavras, o velho subiu na árvore com uma agilidade felina.
Em cima da árvore ele se aconchegou da forma que podia, enquanto o de baixo ainda andava pelos arredores, estudando o ambiente.
- Não se preocupe Kyros – disse a voz mais velha – O único perigo que esta região pode nos oferecer, são os lobos.
- Eu sei, e é bom que esta noite eles venham nos caçar, eu estou morrendo de fome.
Kyros analisou a situação e viu que em caso de perigo, a árvore não apresentaria qualquer dificuldade na tentativa de escalá-la. Depois de todas as precauções Kyros entrou no tronco da árvore, deixando a espada desembainhada à frente do corpo, para qualquer emergência.
- Mestre? Falta muito ainda para a tal vila? – perguntou o jovem.
- Se eu não estiver enganado, acho que em menos de uma semana adentraremos no vale.
- E o que é que nós vamos fazer lá mesmo, eu ouvi dizer que por estas bandas não existe sequer uma taverna que sirva uma cerveja descente.
O velho pegou um pedaço de pergaminho amassado e o entregou para o mais jovem, que desdobrou o pergaminho sem muita classe, quase rasgando uma das bordas, depois o ergueu a altura dos olhos e começou a lê-lo, em voz baixa:
Eu não sei como começar esta carta de forma adequada, mas peço que desesperadamente quem quer que a encontre não faça pouco caso da mesma.
Eu vu escrevo pois nossas esperanças estão se esgotando. Por favor ajude-nos.
Sou um morador do humilde vilarejo de Jaberwock, um pequeno vilarejo fundado a 79 primaveras atrás de acordo com as minhas contas e antes destas as de meu pai. Nossa humilde vila, é localizada no centro de um vale nas encostas de Miriád –Târ, como batizamos a montanha mais próxima de nós. Nossos ancestrais bem que tentaram erguer nossa vila do lado de fora da cordilheira, mas os ventos fortes da planície de Aglavesh destruíam todas as construções sem muito esforço. Desta forma o vale parecia ser um abrigo eficiente contra os ventos e, além disso, o solo do vale se mostrava muito mais fértil que o do deserto. Sob estas condições os nossos ancestrais não puderam resistir e levaram nossa “cidade” para o interior do vale.
Durante muitos anos nossa agricultura nos sustentou e ajudou o vilarejo a crescer, e em um dos bosques locais cresciam árvores frutíferas. Apesar de ser localizada no centro do vale, durante o verão e a primavera caravanas de comerciantes passam pela nossa cidade e é nestas épocas que compramos e vendemos nossas mercadorias. Bom temos um lugar muito pobre, mas “tranqüilo” para morar, mas se nossas vidas se resumisse a isso, não faria sentido eu estar escrevendo esta carta, então vamos ao que interessa.
As primaveras e os verões são muito comemorados por aqui, enquanto o outono é uma estação mais tranqüila e não precisa nem ser mencionada. São os invernos a causa de todos nossos problemas. Calma, eu não sou louco, não quero que ninguém extermine os nossos invernos. Acontece que no aniversário de vinte anos do vilarejo, que cai justo num inverno, nós sempre nos reunimos na prefeitura para uma festa bem aconchegante cheia de comes e bebes. Apesar das nevascas que sempre assolam nossas moradias, estas festas eram aquecidas pelas tochas e pelo calor humano. Mas neste dia a nevasca não veio sozinha... Eu era ainda uma criança e brincava na neve do lado de fora da prefeitura enquanto os moradores iam chegando levando cada um a sua contribuição. Nós, as crianças, estávamos brincando de esconde - esconde, quando a nevasca aumentou e então todos começamos a correr para dentro. Eu estava atravessando a rua quando de repente um dos meus amigos começou a gritar desesperadamente por socorro. Não só eu, mas todos os adultos que ouviram correram em direção ao grito, e como eu estava mais perto cheguei primeiro e vi a aterradora cena: o garoto estava caído no chão ainda consciente, mas sem as pernas, atrás dele um rastro de sangue indicava que ele tinha se arrastado por alguns metros, mas antes que eu pudesse sequer tocar as mãos dele, ele foi erguido novamente por uma criatura gigantesca, e foi devorado por inteiro. Eu fiquei em estado de choque e só não fui devorado porque a criatura arranjou outros alvos, com os adultos que chegavam. Os minutos que se passaram foram preenchidos por um massacre sem precedentes. Naquela noite não teve mais festa, e o salão da prefeitura foi usado para velar os corpos. Quinze pessoas morrerão naquela noite: dez homens, quatro mulheres e um menino.
Depois daquilo, a rotina da cidade mudou, não houve mais festas e agora todo mundo morre de medo do monstro. Os ataques não diminuíram, mas continuaram noite após noite, as pessoas que ficavam nas ruas com certeza eram mortas, e quando o monstro não encontrava “alimento” nas ruas, muitas vezes ele violava o lar dos moradores e fazia suas vítimas: mulheres e crianças, jovens e idosos, nada escapava da fera. Ao longo dos anos os ataques continuaram e a única coisa que pudemos fazer com relação a ele, foi verificar que seus ataques só aconteciam durante as nevascas. Fosse ele o causador das mesmas ou não.
Alguns de nosso povo fugiram, se para encontrar a morte na planície ou encontrar um outro lar, eu não sei dizer, mas todos os que nos deixaram nunca mais deram notícias. As cidades mais próximas ficam a milhas e milhas de distância e nós não podemos ingressar numa viagem de mudança, afinal é grande o número de crianças e idosos que não suportariam a viagem. Desta forma, tudo o que nos resta é viver aqui mesmo, aproveitando o bom tempo e nos escondendo das nevascas e dele: Glacerfang, nós demos este nome para ele, pois notamos que enormes blocos de gelo fazem parte do corpo deste demônio, que se parece mais com um iceberg andante.
Bom eu não tenho mais muito para falar, exceto que já tentamos de todas as formas destruir a criatura mas nunca tivemos êxito. Muitos aventureiros vieram a nossa vila na tentativa de nos ajudar, mas todos foram mortos, ou fugiram assustados para longe daqui. Eu não tenho mais nada para dizer, mas deixo o meu pedido para que quem encontre esta carta, entregue-a à alguma guilda, ou a alguém apto para enfrentar o nosso “problema”, eu peço com todas as minhas forças, e da mais humilde forma: Alguém nos ajude!
* Nós não somos portadores de nenhuma riqueza, mas faremos de tudo que pudermos para retribuir a quem matar este demônio, por favor alguém nos ajude.
Ass.: Clíper Abraham, prefeito de Jaberwock.
O jovem terminou de ler a carta e a dobrou novamente, voltando a entregá-la ao velho em cima da árvore.
- Demônio? Eu duvido muito, se de fato fosse um, nós já estaríamos a par disto não? – conferiu o jovem.
- Realmente, eu li alguns bestiários e conversei com alguns monges antes de virmos para esta região, e de acordo com os meus estudos, eu acho que o “demônio” não passa de um monstro natural das montanhas, obviamente carnívoro, que encontrou nos humanos, o alimento ideal – disse o velho, demonstrando uma sabedoria admirável.
- Será que é realmente tão perigoso quanto dizem? – o jovem pensou em voz alta.
- Provavelmente, se levarmos em conta que todos os exterminadores que foram mandados para a vila não voltaram, ou fugiram assustados.
- Huum! Então deverá ser uma batalha interessante. Mas mestre no fim desta carta eles citam que não tem como pagar de forma adequada, então porque é que estamos nessa? - disse Kyros saindo de seu esconderijo e olhando na direção da figura a qual ele se dirigia como mestre.
- Calma meu jovem, calma. Esta carta está nos murais da guilda há uns cinco anos, e acabou ficando famosa por aquelas bandas, ainda mais que nunca chegavam notícias a respeito da destruição do monstro pelos que tinham ido atrás dele. A única notícia que de fato chegou foi, um bardo trazendo boas novas de Karimir, filho de Boahik – o velho escondia um sorriso.
- Boas novas, então porque estamos nesta? Se aquele verme teve êxito... – Kyros exprimia descontentamento nas suas palavras.
- Karimir, tinha fugido e pago um bardo para espalhar a notícia sobre sua “vitória”.
- Fugido? E ainda ousou pagar um bardo?
- Sim – o velho caiu na gargalhada – o bardo aceitou o dinheiro de Karimir, mas fez uma música contando de fato o que tinha acontecido e pôs por terra a moral de Karimir na guilda. – o velho agora caia na gargalhada, e era acompanhado por Kyros que ria também – Hoje tem um mural sobre Karimir, em todas as tavernas e guildas de Tarn, ele é conhecido na cidade inteira como “Aquele que Teme o Frio”.
Neste momento os dois caíram em uma gargalhada que despertava o sono do gélido bosque. Pássaros, alguns roedores, e outros animais acordavam assustados e fugiam de perto de onde os dois barulhentos amigos conversavam. Os dois ainda riam baixo quando, uivos aterradores rompiam a noite, e som de dezenas de passos podiam ser ouvidos na neve não muito longe.
O velho ficou em alerta no alto da árvore, e observava de que lugar o ataque ia irromper.
- Esteja preparado Kyros, deve ser uma matilha grande.
- Que bom, eu estava mesmo com fome – disse Kyros desembainhando a imensa espada.

Continua ... 



                            

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