quinta-feira, 27 de maio de 2010

A Estrada (The Road, 2007)

E se no fim do mundo, Deus não voltasse para nos salvar? E se ficássemos abandonados a nossa própria mercê, num mundo cruel, impiedoso, onde nossos semelhantes fossem nossos piores inimigos – bom, com isso já estaríamos acostumados – E se fôssemos privados até mesmo da luz e do calor do sol? E se fôssemos condenados a vagar pela esterilidade à espera do abraço inexorável da morte? É nesse cenário pós-apocalíptico que Cormac McCarthy conduz sua história.

Não se sabe o que aconteceu com o mundo, - provavelmente alguma consequência da Terceira Guerra Mundial – mas também não é esse o objetivo do livro. Não faz parte da trama como o mundo foi destruído nem como chegou aquele estado, o cenário cinzento, árido, escasso em recursos, serve apenas como plano de fundo para a sobrevivência de nossos dois protagonistas – é bem isso que o livro é: Um Guia de Sobrevivência.

O escritor, conta a história de pai e filho que partem numa jornada rumo ao litoral, o objetivo? Simplesmente vagar pelo mundo fugindo da morte. Não é uma aventura de ação, regada manobras fantásticas e tiroteios. Não espere ver nosso protagonista, dando um duplo twist carpado, enquanto atira na cabeça de dezenas de inimigos, nem nada mais brando. O livro segue numa atmosfera densa cheia de tensão, no melhor estilo: “abaixe-se e não faça nenhum ruído”. Como se não bastasse a procura incessante por alimentos, e água, os dois ainda têm que se esconder dos eventuais assassinos que vagam por aí, afinal de contas a falta de alimento levou as pessoas a praticarem canibalismo – como marca registrada de Cormac, o livro contém muitas “cenas” fortes, dignas de causar asco e repugnância, destaque para uma casa, onde pessoas vivas eram mantidas no porão, para abate.

O ponto alto do livro é a excelente narrativa de Cormac McCarthy, regada de realismo, e maravilhosamente bem detalhada, ela conta minuciosamente o dia a dia dos protagonistas. Desde quando acordam, até o preparo dos alimentos, passando pela higiene e a busca incessante de objetos úteis no cenário devastado – se um dia o mundo chegar a esse ponto, você vai se agradecer por ter lido esse livro. A descrição do ambiente também é maravilhosa. Mesmo em um mundo cinzento e apático, Cormac não deixa passar nada: As nuvens que cobrem o céu e há muito esconderam o sol, as cinzas que caem eternamente, o frio, a deterioração da natureza, as chuvas constantes e a possível aniquilação da vida animal. O fator psicológico também não foi deixado de lado. A história é cheia de lembranças passadas e divagações por parte do pai do garoto, demonstrando toda a sua desesperança em viver, porém muita teimosia em aceitar a morte, lutando com todas as forças para manter seu filho vivo. O lado do menino também não é esquecido, e mostra como jovem demais para conhecer o mundo como ele era, se adapta a única realidade que tem conhecimento.

A Estrada não é um livro de aventura, todo alegre e bonito de se ler, é sim uma narrativa sobre a sobrevivência, sobre a relação de amor entre pai e filho, e uma reflexão sobre o fim do mundo e a morte da humanidade.


Escritor: Cormac McCarthy

Nota: * * * * *

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